Arquivo do mês: agosto 2012

Ticck Lopes e os dois milhões de “curtir”

Ticck Lopes… Eu nunca vou me esquecer desse nome.

Ticck era um típico garoto de internet. Aos dezenove anos de idade, Ticck estudava publicidade e tinha conseguido atingir um dos seus muitos sonhos: emplacar uma página de sucesso na internet. Em apenas duas semanas, Ticck conseguiu quase dois milhões de “curtir” e muita polêmica envolvendo sua criação.

“Ticck Lopes: esse cara é um fenômeno!” dizia o empolgado, mas lacônico, e-mail que recebi do meu chefe. Eu já o conhecia; era suficiente para eu saber o que deveria fazer.

Mandei um e-mail e marquei uma reunião com Ticck na mesma semana. A essa altura, ele já havia dado entrevistas para a televisão e sido matéria em todos os meios de comunicação possíveis, inclusive internacionais. Era uma espécie de Michel Teló do humor virtual.

No dia da reunião, Ticck parecia nervoso e ansioso. Bastaram quinze minutos para eu entender seu limite e convencê-lo do que queríamos: ele aceitou uma oferta de estágio e estava feliz por iniciar sua vida profissional. Ticck, criador de uma página que foi curtida por 1% dos brasileiros (ou 5% dos brasileiros que acessaram o Facebook nas duas últimas semanas), aceitou receber R$ 800 mensais e estava deslumbrado com a nossa estrutura. Apesar de sermos pequenos, temos máquina de café com diversos sabores e nosso pote de guloseimas com chocolates ajuda os colaboradores a trabalharem mais felizes. Ticck comeu 3 bombons durante a entrevista.

Despedi-me de Ticck e subi à sala do meu chefe para anunciar a contratação. “Os números do rapaz são impressionantes” – eu disse – “tão impressionantes que já há quem diga que Ticck é novo gênio das mídias virtuais”. Meu chefe, assim como a grande maioria das pessoas, é tarado por números e associa sucesso à genialidade. Recebi os parabéns e um tapinha nas costas. Era hora de tirar todo ouro que pudéssemos daquela mina.

Esperando o elevador para voltar ao meu andar, comecei a pensar na loucura que tudo aquilo era. Ticck não era gênio. Eu sabia disso, meu chefe sabia disso, talvez ele também. Ticck é um Zé Ninguém que criou uma página de plágios em um formato que foi plagiado de outras. Não havia nenhuma novidade ou algo que indicasse que existia motivos para o sucesso da página. Ela era banal, boçal, ordinária. Por que, então, fez sucesso?

Ticck era um medíocre acaso. Como The Monkeys, Keirrison e Celso Pitta. Coloque cinco barracas de hotdog idênticas, uma ao lado da outra, e peça para 100 pessoas, em fila, escolherem uma delas para comer. Cada barraca será escolhida por, aproximadamente, vinte pessoas, certo? Não. Provavelmente, alguma barraca terá setenta pessoas, porque elas tendem a escolher a mesma que os demais escolheram. Ticck era só um reflexo dessa casualidade que faz com que uma das cinco barracas seja escolhida, mesmo sem ter diferencial algum.

Mas barracas de hotdog não incomodam, tampouco lucram. Ticck incomodava. Mesmo sem querer, Ticck mexeu, com seus plágios, com o maior segredo de muitos dos que passam horas em redes sociais na internet: o sonho de ganhar dinheiro ou fama com ela.

Fazia tempo que não se via tantos blogueiros, twitteiros e “celebridades” da internet tão incomodados. Muitos dos quais, até então, não se cansavam de vociferar contra os que ficam reclamando de plágio porque “levam a internet a sério”. Naquela hora, porém, estavam revoltados. Talvez se olhassem no espelho e achassem injusto demais que tivessem destaque pífio enquanto o de Ticck era monstruoso. Era injusto mesmo. Como a vida.

O que ninguém admitia é que Ticck era só um filhotinho desses todos, que sempre acharam cool a cultura da libertinagem na internet. Nada mais coerente, agora que se sentiam prejudicados, do que continuarem “nem aí”.

O elevador chegou e voltei à minha estação de trabalho.

Tudo isso, porém, pouco importou. Para sorte dos plagiados, Ticck cometeu um erro que custou a sua página e seu emprego: admitiu o plágio. Pode parecer pouco, especialmente após o patético argumento de que os plágios foram feitos por um terceiro que trabalhava com ele (o que não alteraria sua responsabilidade como proprietário da página), mas Ticck havia acabado de fazer uma confissão de culpa. E, considerando-se que havia jurisprudência sobre plágio em conteúdo na internet, seu erro custou caro. Literalmente.

Pouco importa. De uma forma ou de outra, Ticck era só mais uma gota do chorume em que navegamos na internet. Como tal, se misturou às demais que um dia chamamos de geniais e desapareceu, até quase esquecermos.

Não foi assim também que aconteceu com o… Como é mesmo o nome dele?

Anúncios

7 Comentários

Arquivado em @arturdotcom

Putaria

10:10. Porra, eu odeio acordar cedo, ainda mais sabendo de todas as picas que terei hoje. Mas ok, faz parte. Quanto antes eu acabar com essa merda, melhor.

11:00. Chego no gabinete e a secretária está com cara de quem acordou agora há pouco. Se tem algo que eu odeio é quando ela tem uma noite boa, porque o dia seguinte dela (e, claro, o meu) é ruim. Estou de saco cheio dessa puta.

– Bom dia, Dona Vera. – resmungo, sem disfarçar meu incômodo.

– Bom dia, seu Jairo! Aquele almoço que o senhor pediu está confirmado, tá?

– Ok. Pega aquelas anotações que o menino fez e traz aqui na minha sala. Quero falar com você.

Verinha já não é mais a mesma. Quando a conheci, enquanto fazia campanha numa região pobre da cidade, tinha um corpo de fazer inveja. Hoje é uma gorda que enche meu saco e que sabe que o que eu mais quero é ver ela bem longe dali! Eu detesto gente pobre – não sei como consigo disfarçar tão bem – mas a Verinha sabe demais e tenho que aturar. Não que compense, mas pelo menos ela não desaprendeu a chupar. Isso é indispensável numa secretária.

12:10. Leio o relatório de baboseiras que o estagiário preparou pra minha reunião. Na verdade o “relatório” é um resumo com uns oito tópicos, no máximo duas linhas cada. Demito quem não sabe resumir. Se eu quisesse ler, teria estudado Direito ou qualquer outra coisa. Tem que ser muito otário pra se dar ao trabalho de ficar lendo sei lá quantas mil páginas.

De olhos fechados, tentando memorizar o sexto tópico, bato acidentalmente no portarretrato em cima da minha mesa, enquanto gozo na boca da Verinha. “Sim, ela ainda sabe chupar” penso, ao mesmo tempo em que vejo os cacos de vidro quebrados sobre a foto dos meus filhos e noto a boca dela cheia de porra. “Mande consertar o vidro desse negócio de foto que minha mulher vai encher o saco se perceber que tirei daqui”. Ela balança a cabeça concordando. Limpo meu pau com o papel das anotações e jogo ele fora. Eu lembro dos cinco primeiros tópicos. Foda-se.

13:20. Chego pro almoço com os puxassacos. Confesso que pode até ser um almoço produtivo, mas esse é o melhor puteiro dessa cidade… Enquanto contamos histórias de viagem, só para descontrair, a mesma loira de sempre acaricia meu pau. Acho até que estamos falando alguma coisa útil sobre política, não sei muito bem. É difícil ter a exata noção quando se está bebendo uísque e pensando em sexo.

Não me aguento e subo para o quarto com a loira. Tomo meu comprimido azul e faço ela cavalgar no meu pau. Nem sempre se comanda a situação… Quando é confortável, especialmente por conta da minha barriga e idade, prefiro ficar por baixo.

16:50. De volta ao gabinete, os candidatos a prefeito de cinco cidades já me esperam na sala de reuniões para o encontro que marcamos para as 16:00. Entro e dou um abraço caloroso em cada um deles: sou ótimo em lembrar nomes e fisionomias, mas não faço ideia do que estão fazendo em suas cidades. Provavelmente, porra nenhuma. Ninguém se importa. Levanto e, sem introdução ou vaselina, começo a reunião berrando:

– Senhores, não sei que merda acontece na cidade de vocês, mas de uma coisa eu sei: qualquer brasileiro decente, de qualquer região, odeia viadagem. Por isso, minha sugestão para a campanha de vocês é uma só: família.

Faço uma pausa.

– Vamos resgatar os valores da família e pulverizar da nossa sociedade essa aberração promiscua chamada “gays”. Vamos acabar, na porrada (se preciso for), com toda essa frescura!

Os cinco sorriem.

– Mas antes de falarmos sobre como vamos fazer isso, façamos uma prece. Uma prece para agradecer a Deus pela benção, pela força e por mais um dia de graças alcançadas.

Amém.

5 Comentários

Arquivado em @arturdotcom

Para dormir, para não dormir

Era tarde da noite e ele a ouvia como quem ouve uma canção de ninar. Seus olhos pesados coçavam carentes de sono e embaçados de cansaço. Ouvia-a se distanciar enquanto adentrava o universo onírico. De longe, parecia uma voz doce e compassada. Adormeceu.

Despertou no meio da noite e passou a escutá-la novamente. Foi a primeira coisa que ouviu. Seu som parecia cada vez mais alto e se tornava irritante. Cada nota batia em sua cabeça e ecoava no silêncio dos seus pensamentos. Queria dormir, queria calá-la, mas não queria se mover.

Pensou em todas as razões para estar ali agora, com ela. Era um acomodado, só reparava o quanto ela o atrapalhava nessas horas, nas demais mal dava atenção. Estava sempre ocupado demais para dar atenção. Além do mais, ela o fazia dormir.

Era um desperdício de vida e de dinheiro tê-la ali apenas para isso, mas se livrar dela daria trabalho. Teria de contratar alguém pra isso. O banheiro ficaria uma imundície e não teria ninguém para limpar. Ele teria de fazer o trabalho sujo.

Desistiu de se livrar e tentou resgatar a afeição do começo da noite. Pensou em modos paliativos, distrações. Poderia ter outras, quem sabe. Várias dela poderiam amenizar o estrago que só uma faz. Pensou sobre como ela parecia suave quando ele adormeceu. Suave até acordar irritado. Mas ela não o irritava, não era de propósito. Apenas estava ali, sempre presente.

Não conseguia entender o que havia acontecido entre o sentir sono e o querer dormir que fez com que de uma canção de ninar, seu ruído passasse a ser um barulho infernal que fazia com que desejasse ser surdo.

Relutante, foi ao banheiro e pegou uma toalha no armário. Colocou-a sob o cano da pia como quem enfia um pano na boca de alguém. Talvez assim aquela goteira parasse um pouco de atrapalhar seu sono.

6 Comentários

Arquivado em @djex

Champanhe nacional em copo de plástico

Ele sempre saía cedo pela manhã para ir trabalhar. Mochila do notebook, pasta embaixo do braço, camisa para dentro da calça. Antes de cumprir sua jornada diária, ela preparava-lhe o café da manhã e se despedia aos beijos na porta do apartamento esperando o elevador chegar. Trocavam acenos até a porta se fechar para o elevador descer. Ele ia embora, ela suspirava.

Merecido foi que ganhou um dia de folga no trabalho em troca das horas extras cumpridas até então. Acordou mais tarde do que o habitual e pegou a mesa do café já posta. Molhando o pão no café enquanto lia a página de esportes – começava o jornal sempre pelo caderno de esportes -, eis que surge sua mulher já vestida para sair. Deseja bom dia e é desejado. Beija e é beijado. Elogia sua mulher que é bem bonita.

Saía para fazer compras no shopping com a mãe. Enquanto ela esperava o elevador chegar ficou na porta para acenar quando a porta se fechasse. Disse que a amava e que aproveitasse o passeio. Ela mandou um beijo de volta. Houve um silêncio. Ela olhou o botão do elevador ainda aceso. Ele olhou para os pés. Levantou a cabeça e sorriu para a mulher. Ela sorriu de volta. O elevador chegou. A porta abriu. Ela ia embora, ele engoliu em seco.

Fechou a porta de casa assombrado pelo tempo que o elevador demorou a chegar. Percebeu naquele momento como era a vida dentro de seu próprio lar numa manhã de um dia de semana. Sons que não lhe eram familiares como o da construção do prédio ao lado. Cores intensas como a do sol da manhã que prometia o anúncio dos classificados. Cheiros como o da carne assando misturado com o refogado do arroz na cozinha do vizinho.

Era como se tivesse se despedido de uma mulher desconhecida e tivesse entrado na casa errada.

O desespero bateu forte. O coração disparou e as mãos suavam. Uma sensação desagradável lhe atingia naquele momento. Poderia descrever como o medo que vinha após um susto. Um medo de levar outro susto quando o corpo ainda estava crispado em pânico.

Os cabelos do pescoço ainda estavam eriçados quando se virou da porta para a sala que se encontrava mais escura. O janelão que dava para a rua não estava fechado, mas diminuído. Correu até a janela e só conseguiu colocar o rosto pelo buraco que ficara. Sentiu-se olhando pela escotilha de um navio. Tirou rapidamente a cabeça temendo que ficasse presa.

Olhou depressa ao redor para a sala. O sofá, a televisão, a estante de livros e enfeites. Tudo parecia normal. Pegou um porta-retrato com a foto de uma bonita mulher morena posando junto a um avião monomotor. Suando nervoso, acreditava ter ficado louco. Sua mulher não era morena nem nunca chegou perto de um avião. Largou a moldura no chão e seu vidro trincou. Numa outra foto, uma pose do time de hóquei do exército vermelho soviético. Jogou longe, bateu na parede. O vidro se fez em pedaços.

Pegou os livros e folheando o primeiro, percebeu que estava em branco. Nem na capa havia nada escrito. Assim como todos os outros nas prateleiras. Começava a arremessar livros pela sala quando passou a mão no seu chaveiro. Ia sair daquele jeito mesmo. Só de shorts do pijama. Precisava sair dali, precisava correr.

Tentando abrir a porta que o desespero bateu mais forte. Nenhuma das chaves encaixava na fechadura. Aquele era seu chaveiro da sorte desde a sétima série. Não podia falhar agora. Tentou gritar e não lhe saiu nenhum som. Nunca se sentiu tão sozinho. O teto do corredor da porta lhe espremia a cabeça. O cômodo estava diminuindo. Saiu engatinhando quando uma parede se fechou atrás de si.

Correu para o telefone da cozinha que apenas tocava uma canção de vaudeville. Nada de linha. Olhou para a mesa do café que deixara há instantes e viu que seu jornal estava todo azul. Na sua xícara brotara uma orquídea. E nos seus olhos várias lágrimas.

Dentro do quarto do casal percebeu que a porta que bateu com o vento não se abriu mais. Da janela não podia olhar porque seu vidro estava preto. Não conseguiu quebrá-lo nem arremessando o criado mudo. Virou a penteadeira (que sua vó chamava de toucador) no chão. Arrancou a persiana da parede e tirou o colchão da cama.

Arranhou a porta em total descontrole. No auge, chorando, não ouvia a própria voz. Ele chorou ajoelhado entre os destroços do quarto. Prometeu ser uma pessoa melhor.

4 Comentários

Arquivado em @escuerzo

Assalto

Levantou devagar. Acordou de assalto (roubaram-lhe o sono), e agora levantava. Lentamente, um pé após o outro, um choque térmico por vez. Levantou. Como se andasse na calçada da fama, pisa com maestria; estava de pé. Começa a jornada.

O mapa já era desenhado no cérebro, ou por repetição do trajeto, ou por vontade exacerbada. O caminho era simples, direto, sem obstáculos aparentes. Aparentemente estava tudo nos conformes, conforme o planejado. Seguiu. Dois, três, quatro passos, não me lembro. A porta abriu. Não sozinha, é claro, foi preciso alguma habilidade. Desfeito o cativeiro, começa o assalto.

Com destreza alguma, percorre o caminho conhecido que leva até ela. A terra prometida, a ilha de Found, o paraíso de Deus nenhum. Tentar não fazer barulho, caso funcionasse, seria um bom plano. Mas não funciona, então faz-se música. E dança. Dum lado pro outro, enquanto toda a maravilha vai surgindo,  lentamente.

Chega. Está lá, em frente; enfrente! Abre com cuidado o portal, que se mostra disposto como se pedisse pra ser aberto. Procura o tesouro com impaciência. Suor. Encontra. Até que enfim. Sem preocupação com a vida, o mundo, a barriga, o médico, a balança, come. Não só com os olhos, desta vez com a boca mesmo. Assalto completo. A geladeira sofreu um arrastão com precedentes. Dane-se. Quem liga se o habeas corpus for justo demais e só passar, com muita luta, pela cabeça? Bom mesmo é ser indigente de casa. Bom mesmo é ser convidado ao crime. Bom mesmo é ser culpado e pegar uma pena de peso.

1 comentário

Arquivado em @giovanamorim

Congelados no microondas

Ninguém sabe muito bem como tudo começou, mas foi muito tempo atrás. Advindos (ou não) dos macacos, os seres humanos surgiram com duas das suas principais características: a vontade de comer e a vontade de transar.

No começo, tudo era cru. O homem ainda não havia descoberto como controlar o fogo e não existia nenhum tipo de organização. Desta forma, para comer, contava simplesmente com a força. E com um pouco de sorte.

Mas o homem evoluiu. Lentamente. E alguns começaram a perceber que era possível controlar e preservar seu fogo. Como consequência, passaram a comer melhor e de maneira menos aleatória.  Surgiram, assim, a fogueira e as vaidades, que permitiram aos dominantes se alimentar como nenhum outro. Mas o homem nunca está satisfeito. Ele quer sempre comer mais.

Por isso, a sociedade se organizou e transformou a fogueira em fogão a lenha. Essa mudança permitiu que o homem abandonasse a caça e passasse a se dedicar às ciladas. Para tanto, começou a construir armadilhas para atrair presas, que eram praticamente encarceradas e postas à sua disposição, sempre que quisesse comer. Era bom, mas era pouco para a insaciabilidade do homem. Ele comia fora de casa.

Até que as presas se cansaram. Surgiram os fogões a gás e sutiãs foram queimados. O homem tentou manter seu status dominante, mas acabou cedendo cada vez mais. Teve de ceder. Com tanto gás disponível, o fogo estava controlado e à disposição de muitos. Na natureza, como se sabe, todos são caça e caçador. Equidade. Nada mais justo.

Foi quando a sociedade se tornou virtual e surgiu o microondas. O microondas é a mais emblemática e paradoxal revolução humana: criamos uma forma de esquentar mais rápido o que queremos, mas perdemos muito em sabor, textura, cheiro. Ele aquece, mas não há fogo. Ele descongela o que não está fresco.

Por isso, passamos a congelar o que, um dia, (talvez) queiramos esquentar e compartilhar. Deixamos ali, guardado no fundo das nossas redes sociais, imaginando que estarão dentro da validade quando quisermos. O microondas deixa tudo à disposição. Basta um pouco de dedicação e alguns minutos de paciência.

Nunca gostei muito de congelados. O prazer não é o mesmo; é só masturbação.

A propósito: tem mensagem para você.

6 Comentários

Arquivado em @arturdotcom

Ossos Frágeis

Seus ossos eram destinados à fragilidade, e seu corpo era propenso a acidentes… praticamente uma ode a postulados murphynianos .

Aos 5 anos de idade, após assistir Mary Poppins, decidiu subir no telhado de casa de posse de um guarda-chuva e, lá de cima, repetir o feito de planar até aterrissar suavamente no chão. Depois do salto, as duas costelas quebradas foram sua primeira experiência sobre o conceito de gravidade.

Ele não teve amigos imaginários, durante todo seu crescimento as fraturas e hematomas sempre foram suas companheiras constantes e certamente preenchiam tais necessidades psíquicas.

As histórias de suas desventuras se acumularam ao passar dos anos, fazendo dele um verdadeiro trovador de quedas, tropeços, tombos e dos mais improváveis acidentes.

Certa feita, já adolescente, e sempre desafiando imprudentemente toda a espécie de limites, estava brincando com seu carrinho de rolimã no mais acentuado declive que havia em sua cidade, ocasião em que, em uma das descidas, a roda do seu carrinho se desprendeu, provocando assim um acidente que resultou na fratura de sua perna direita.

O mês em que ele ficou com sua perna direita engessada passou rápido e, no dia em que foi retirado o gesso, voltou para casa, descalçou seus tênis e, ao subir a escada que dava acesso aos quartos, escorregou e sofreu novamente uma fratura em sua perna direita (o chão estava recém encerado).

E foi-se mais um mês inteiro com sua perna direita engessada. Quando finalmente se viu livre daquela bota, resolveu apostar uma corrida de bicicleta com seus amigos, afinal, ele passara mais um mês inteiro “de molho” e havia muita energia a ser gasta.

Logo na primeira curva, ele perdeu o controle de sua bicicleta, vindo a colidir frontalmente contra um tronco de árvore. Resultado: perna direita fraturada pela terceira vez consecutiva.

Obviamente temeroso pelas prováveis represálias maternas e paternas diante de mais uma travessura que lhe custou ferimentos, decidiu agir de modo diferente: esconderia de todos que sua perna direita estava novamente quebrada.

Nos primeiros dias ele aguentou bem as dores e cumpriu rigorosamente a rotina casa-escola-casa-cursinhodeinglês-casa, mas na 2ª semana seus familiares começaram a notar um odor estranho.

Na terceira semana o odor estranho transmutou-se em um cheiro nauseabundo. Sua perna estava em avançado processo de necrose, e as dores ficaram insuportáveis.

Não tendo mais como esconder a fratura de seus familiares, foi por eles encaminhado ao hospital para ser submetido a procedimentos traumatológicos cabíveis. Infelizmente, houve apenas uma solução para seu diagnóstico: a amputação de sua perna direita, logo abaixo do joelho.

Os próximos meses foram de intensa recuperação.

Já apto a andar, e calçando uma estranha prótese no lugar de sua perna direita, resolveu que era hora de testar o uso de seu novo membro postiço e decidiu que iria dar um volta de bicicleta pelo bairro.

Ao atravessar a terceira esquina, não se atentou para o semáforo que sinalizava verde para os veículos que vinham pela rua transversal, vindo a ser atropelado. Seu corpo foi projetado para cima, mas desta vez, por uma dessas sortes improváveis da vida, não sofreu ferimentos.

Entretanto, ao tentar se levantar, percebeu um vazio que vinha de seu joelho direito até a ponta de seu membro fantasma (afinal, seu cérebro ainda lhe fazia acreditar que havia uma perna direita de verdade): a prótese ficou no para-brisa do veículo atropelador.

Levantou-se e, tal como um saci-pererê, foi em direção a janela do motorista e gritou: “Devolve minha perna!”. Pegou sua prótese, subiu em sua bicicleta e retornou ao seu passeio como se nada houvesse acontecido (enquanto o motorista permaneceu no local inerte, em estado de choque).

Terminou seu passeio e já resignado pelo seu destino de perneta, percebeu que, a partir daquele momento, a única alternativa que lhe restava para extravasar sua energia, sem correr riscos de acidentes, era escrever. Precisava ele sublimar a profunda tristeza que sentia diante da expectativa de uma vida que lhe traria certas limitações.

Entrou em casa, subiu para o quarto, ligou o desktop, abriu o editor de textos, sentou-se na cadeira da escrivaninha…

A cadeira quebrou, ele caiu no chão e sua mão esquerda sofreu uma fratura.

Fim.

Deixe um comentário

Arquivado em @eddiemasses