Enfileirado

De repente você está parado. Muito consciente de onde, como e porque, mesmo quando tentar esquecer. Você está parado, perdendo seu tempo. Tempo é dinheiro. Aquele dinheiro que você  quase não tem e que está prestes a ser subtraído da sua conta equacional. Entrar na fila nunca é agradável. Se a cabeça se distrai e cala, os pés continuam reclamando. É sempre como estar numa crise de claustrofobia exacerbada: você quer sair, escapar, burlar as regras e fugir, seja o lugar apertado ou não.

Você continua parado. Parado num movimento interno constante, veja bem. O seu interior já implodiu em impaciência, seu exterior quer que se exploda. Se explodam todos os transeuntes, aqueles que voam continuamente, dia após dia, mas que resolveram parar  logo hoje, aqui, na sua frente. Uma vez na fila, você pode observar tudo, principalmente o relógio. Ele corre, queniano, transpondo todos os obstáculos, enquanto você continua ali, parado, num flashmob peculiar, ensaiando passos dum samba lento e preguiçoso: um pé a frente, depois o outro, de volta ao primeiro e todos os etcéteras.

Você continua parado. Mesmo quando a fila anda, caminhando para o seu fim que nunca parece chegar, você continua parado. E é parado que você percebe o quanto queria caminhar. É parado que se esquece a preguiça, o sono, o sedentarismo. Parado é que você quer movimento. O pare é sempre o estimulante para o próximo ”vá”. Mas ir é algo que não se pode fazer agora, embora a vontade esteja presente e tão perto de você quanto a nuca do sujeito em frente.

Você continua parado. E parar assim nunca te levou a lugar algum, se não o fim da linha. É lá que você quer estar, arfando incessantemente, sem conforto algum que possa ser dado. O desejo corrupto se apresenta. Aquele de passar por cima, cortar a fila e, mais do que isso, dividi-la em dois, retirá-la de lá e ficar só, em pé, devaneando sobre caminhar, sobre ser prontamente atendido, cobrado, subtraído, chamado, apresentado ao caixa. Mas você está parado. E, até que os outros se livrem da posição de estátua e passem a brincar da correria costumeira do todo-dia-a-dia, é assim que você vai ficar. Próximo!

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1 comentário

Arquivado em @giovanamorim

Uma resposta para “Enfileirado

  1. anônimo

    Giovana queria dizer que este texto foi o que mais me identifiquei, talvez pq faça parte do meu cotidiano, mas não tira seu mérito na forma de descrever a cena, as emoções envolvidas, as sensações, as impressões, até mesmo o barulho. Muito bom, deu a sensação de estar na fila, ou lendo um bom livro mesmo.

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