Os Pássaros

Esses dias, fui a uma praça observar os pássaros e, involuntariamente, as pessoas.

Nunca entendi por que as pessoas gostam de dar comida aos pássaros. Sempre achei uma grande ironia que a comida que damos a eles seja exatamente a mesma que será cagada em nossas cabeças. É como se estivéssemos pedindo para cagarem para justificarmos o porquê de sermos tão cagados e/ou (talvez) para podermos cagar nas cabeças alheias livres de culpa. Sob essa ótica, até faz sentido. <visualize mentalmente um texto sobre a moral cristã e a culpa>.

Ser cagado por um pássaro é desagradável. Ninguém quer, conscientemente, mais merda em sua vida. Os primeiros instantes são de incompreensão, enquanto você sente aquele leve peso sobre seu corpo. Disso, surgem duas hipóteses: você pode ser do tipo reflexivo, que tenta entender o que aconteceu e concluir o que é por si só, ou do tipo curioso, que coloca o dedo para verificar o que é.

Reflexivos são menos impulsivos. O lado bom, nessa hipótese, é que não sujam seus dedos. Ou, em outras palavras, pessoas que refletem antes de agir raramente estão em contato direto com as merdas da vida. O lado ruim, por sua vez, é que demoram a ter segurança sobre o que está acontecendo. Com isso, a merda escorre e reflexivos podem acabar ainda mais cagados. O que é um grande paradoxo, já que evitaram isso ao não colocar o dedo.

De qualquer forma, o fato é que, passado o momento inicial, chega o desespero. Para amenizá-lo, criamos correlações espúrias e cretinas. E crendices. O autoengano é mesmo uma benção! Nossas vidas parecem demasiadamente medíocres sob a ótica dos outros. Seria insuportável saber disso.

Por isso, não causa espanto ver que a maioria acredita que o errático voo dos pássaros está, na verdade, ligado a um grande plano. Estaríamos, nessa hipótese, predestinados a ser cagados para, assim, nossa sorte mudar. Somos cagados para ter a sorte de aprender a suportar as cagadas que recebemos. Faz todo sentido. Tropeçar para aprender a levantar. Pura sorte.

Não são poucos os que passam a vida em praças tentando ser alvejados por pássaros para ter sorte. “Não custa tentar”, dizem. <visualize mentalmente um texto sobre como o desespero serve para dar (falsa) emoção às nossas vidas>.

Acho, inclusive, que os governos deveriam investir em estudos correlacionando desenvolvimento socioeconômico de regiões com o índice de acertos de cagadas de pássaros em pessoas. Revolucionaria a economia mundial.

De qualquer forma, se você é cagado sabe que, no final, tem três opções: ficar com uma mancha ad eternum lembrando a cagada; jogar fora sua roupa (para esquecer a cagada) e começar uma nova; ou limpar a cagada. Na maioria das vezes, optamos pela última, mas não sem antes reclamar de termos de enfiar a mão na merda.

Vão-se as merdas (à merda), ficam-se os pseudotraumas e manchas imaginárias. Contaremos as cagadas às pessoas, como se isso fosse emocionante; elas fingirão interesse enquanto nos visualizam sem roupa ou tentam lembrar onde esqueceram seus guarda-chuvas. Ninguém liga para as merdas dos outros, desde que não estejam perto de nós, fedendo.

“Se eu fosse um pássaro, cagaria nisso ou naquilo”. Não. Se você fosse um pássaro, você não escolheria onde cagar. Você apenas passaria o dia cagando.

Se você fosse um pássaro, teria um Twitter.

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3 Comentários

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3 Respostas para “Os Pássaros

  1. serena lena

    Gostei do texto, no fim pensar como pássaro é o mais legal, é o acaso, não é proposital. Muito cômodo acreditar que é destino ou sinal de azar ou de sorte. Para quê tudo tem q ter explicação?
    O paradoxo é que ser cagado é sinal de sorte, já estar na merda, de azar. Porém o pássaro só estava lá no céu sendo ele, voando e cagando pra sociedade.
    Outro detalhe, todos somos pássaros, ficamos cagando em 140 caracteres pra ser notado, odiado, observado? Qual a intenção? Todas? Mas despercebido ninguém quer ser, porque somos os únicos pássaros que são humanos e não estamos conformados só em fazer merda temos que ter certeza que sujamos alguém!

  2. Anônimo

    “Nunca entendi porque” Tá errado! O certo é: “Nunca entendi POR QUE”, visto que não é uma explicação e pode ser substituído por “por que razão”.

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