Bolo sabor futuro do pretérito

Parecia um bolo. Era muito mais que isso. Devo dizer, sem exagero dramático, que todas as minhas investidas culinárias sempre acabaram em fracasso. Por um tempo eu quis acreditar que era uma rebeldia feminista, uma aversão adolescente à figura da dona de casa. Mas chega uma hora que a gente enjoa de comer Miojo. Então a gente se liberta das amarras a que se prendeu por pura necessidade de autoproteção e medo de admitir a incapacidade de fazer um ovo frito. E é aí que a gente tenta cozinhar.

Eu nunca havia tentado fazer um bolo que não fosse de microondas. Desses que a gente faz na caneca e ficam com uma textura esponjosa, mas que comemos como se fosse uma delícia, afinal, ele compensa pela praticidade. Então era natural que eu me sentisse embarcando em uma nova aventura gastronômica, cheia de anseios e expectativas e “olha, eu que fiz!”.

Comecei a fazer meu bolo numa manhã, num gesto heroico de sair da cama para fazer algo “produtivo”. Comprei os ingredientes e separei em potinhos com a quantidade exata que pedia a receita. Isso me custou uma pilha enorme de louças para deixar para lavar no outro dia, já de volta ao ritmo da procrastinação.

A receita era:

1/2 xícara (chá) de óleo
3 cenouras médias raladas
4 ovos
2 xícaras (chá) de açúcar
2 1/2 xícaras (chá) de farinha de trigo
1 colher (sopa) de fermento em pó

Sempre tive muito carinho por bolos de cenoura. Acho que o fato de levar como ingrediente principal um vegetal dá a falsa impressão de que é muito mais saudável que um bolo comum. O que permite praticar a gordice com muito mais leveza de consciência.

Eu tinha todos os ingredientes. Eu tinha tudo pra dar certo. Eu fiz tudo como a receita mandava. Eu bati as cenouras raladas com óleo, ovos e açúcar por cinco minutos e acrescentei farinha de trigo e o fermento. Eu tinha todos os itens batidos e homogêneos quando enformei e enfornei.

Pela portinha, vi crescer potencialmente e dourar. Mas, passado o tempo que a receita dizia ser necessário para assar – na hora da minha obra culinária sair do forno e vir ao mundo -, o bolo abatumou.

O meu futuro também.

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3 Comentários

Arquivado em @djex

3 Respostas para “Bolo sabor futuro do pretérito

  1. O segredo é bater as claras em neve com uma colher de água pra elas ficarem bem fofinhas, incorporá-las à massa com bastante cuidado e bem devagar e nunca abrir o forno antes do recomendado pela receita.

    Quanto à vida, o lado bom é que quando abatuma às vezes fica uma casquinha crocante nas bordas muito boa.

  2. Outro dia, movido pelo mesmo sentimento de “olha, eu que fiz!”, tentei fazer pão de queijo. Minha mãe é famosa pela pão de queijo e eu sou mineiro, então recaía sobre minhas costas o peso da “hereditariedade” do bem fazer pão de queijo. Também queria conquistar alguém, o que comprometeu minha atenção porque tinha alguém com os olhos na minha nuca enquanto eu fazia. O final é como o seu: abatumou. Mas o relacionamento com aquela pessoa cresceu que foi uma beleza.
    Beijo, Djex!

  3. Pingback: Bolo sabor futuro do pretérito « diecs

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