Histoplasmose

Ele havia se mudado recentemente para novo endereço, nem ao menos teve tempo para mobiliá-lo. Foi justamente nessa época que um infortúnio lhe pegou de surpresa: foi demitido de uma multinacional onde exercia a função de supervisor de alguma coisa.

Percebendo que um grande período de ócio se aproximava e, consequentemente, uma iminente época de austeridade financeira, resolveu que gastaria seu dinheiro apenas com a contratação e manutenção de um provedor de internet, o único bem que, julgava ele, era necessário para manter uma vida minimamente digna. O resto do dinheiro do acerto (FGTS, seguro-desemprego, etc.), bem como suas economias, seriam objeto de rigorosa contenção.

O plano era perfeito: previa ele que, embora seu novo imóvel não guarnecesse nenhum bem, as únicas coisas necessárias seriam um notebook, um modem, e uma conexão de internet. Comida e bebida? Simples, ele contaria com a caridade de vizinhos próximos (afinal, precisaria ele economizar o máximo possível durante esse recesso).

E de fato inicialmente seu plano deu certo. Depois de passar longas horas em frente ao seu notebook, navegando por diversos blogs, sites e redes sociais, costumava percorrer a vizinhança e ser agraciado com o altruísmo alheio.

Entretanto, passado algumas semanas, seu mau odor se tornara insuportável. Como não havia chuveiro em sua casa, e tomar banho na casa de estranhos lhe parecia algo fora de cogitação, sua higiene se deteriorou por completo depois de certo período. Suas roupas, de igual modo, já restavam inutilizadas, o que lhe obrigou a passar a totalidade de seus dias completamente nu.

Foi exatamente nesse estágio que seus vizinhos começaram a recusar o auxílio, afinal, além de sua aparência grotesca, ninguém suportava seus odores nauseabundos.

Sendo assim, diante de tais necessidades fisiológicas básicas, foi obrigado a improvisar: Cortou dois pedaços de madeira provenientes do forro do teto, roubou um pedaço de fio de um varal da vizinhança, e com tudo isso, montou um arco e uma flecha. Com essa primitiva arma em mãos, saiu nu de casa em direção à praça central da cidade para caçar pombos, os quais serviriam de alimento.

E assim diariamente ele procedia: Saía nu de casa com arco e flecha em mãos, caçava pombos e, no retorno, roubava jornais velhos que serviam de cobertas para mendigos para acender uma fogueira na sala de estar e assar os pobres pombos.

Virara uma figura exótica na cidade que, paradoxalmente, se tornara comum aos olhos dos cidadãos que tanto estavam acostumados a ver aquele sujeito nu, se espreitando nos cantos da praça central da cidade, para caçar os pombos que lhe serviriam como almoço e janta.

Ocorre que certo dia ele não apareceu na praça da cidade, e no dia seguinte também não. E assim sua ausência foi sentida pelos cidadãos durante mais 3 dias. Os habitantes da cidade, preocupados com a aludida ausência, resolveram por bem arrombar o imóvel onde ele morava para descobrir o que havia acontecido.

Lá dentro daquele imóvel quase vazio, encontraram um cadáver sentado no chão (a causa mortis, revelada mais tarde por necropsia, foi Histoplasmose), curvado sobre um notebook ligado cuja tela mostrava o aplicativo Word aberto com um texto que iniciava da seguinte maneira: “Ele havia se mudado recentemente para novo endereço. Foi justamente nessa época que um infortúnio lhe pegou de surpresa: foi demitido de uma multinacional onde exercia a função de supervisor de alguma coisa”.

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