Ossos Frágeis

Seus ossos eram destinados à fragilidade, e seu corpo era propenso a acidentes… praticamente uma ode a postulados murphynianos .

Aos 5 anos de idade, após assistir Mary Poppins, decidiu subir no telhado de casa de posse de um guarda-chuva e, lá de cima, repetir o feito de planar até aterrissar suavamente no chão. Depois do salto, as duas costelas quebradas foram sua primeira experiência sobre o conceito de gravidade.

Ele não teve amigos imaginários, durante todo seu crescimento as fraturas e hematomas sempre foram suas companheiras constantes e certamente preenchiam tais necessidades psíquicas.

As histórias de suas desventuras se acumularam ao passar dos anos, fazendo dele um verdadeiro trovador de quedas, tropeços, tombos e dos mais improváveis acidentes.

Certa feita, já adolescente, e sempre desafiando imprudentemente toda a espécie de limites, estava brincando com seu carrinho de rolimã no mais acentuado declive que havia em sua cidade, ocasião em que, em uma das descidas, a roda do seu carrinho se desprendeu, provocando assim um acidente que resultou na fratura de sua perna direita.

O mês em que ele ficou com sua perna direita engessada passou rápido e, no dia em que foi retirado o gesso, voltou para casa, descalçou seus tênis e, ao subir a escada que dava acesso aos quartos, escorregou e sofreu novamente uma fratura em sua perna direita (o chão estava recém encerado).

E foi-se mais um mês inteiro com sua perna direita engessada. Quando finalmente se viu livre daquela bota, resolveu apostar uma corrida de bicicleta com seus amigos, afinal, ele passara mais um mês inteiro “de molho” e havia muita energia a ser gasta.

Logo na primeira curva, ele perdeu o controle de sua bicicleta, vindo a colidir frontalmente contra um tronco de árvore. Resultado: perna direita fraturada pela terceira vez consecutiva.

Obviamente temeroso pelas prováveis represálias maternas e paternas diante de mais uma travessura que lhe custou ferimentos, decidiu agir de modo diferente: esconderia de todos que sua perna direita estava novamente quebrada.

Nos primeiros dias ele aguentou bem as dores e cumpriu rigorosamente a rotina casa-escola-casa-cursinhodeinglês-casa, mas na 2ª semana seus familiares começaram a notar um odor estranho.

Na terceira semana o odor estranho transmutou-se em um cheiro nauseabundo. Sua perna estava em avançado processo de necrose, e as dores ficaram insuportáveis.

Não tendo mais como esconder a fratura de seus familiares, foi por eles encaminhado ao hospital para ser submetido a procedimentos traumatológicos cabíveis. Infelizmente, houve apenas uma solução para seu diagnóstico: a amputação de sua perna direita, logo abaixo do joelho.

Os próximos meses foram de intensa recuperação.

Já apto a andar, e calçando uma estranha prótese no lugar de sua perna direita, resolveu que era hora de testar o uso de seu novo membro postiço e decidiu que iria dar um volta de bicicleta pelo bairro.

Ao atravessar a terceira esquina, não se atentou para o semáforo que sinalizava verde para os veículos que vinham pela rua transversal, vindo a ser atropelado. Seu corpo foi projetado para cima, mas desta vez, por uma dessas sortes improváveis da vida, não sofreu ferimentos.

Entretanto, ao tentar se levantar, percebeu um vazio que vinha de seu joelho direito até a ponta de seu membro fantasma (afinal, seu cérebro ainda lhe fazia acreditar que havia uma perna direita de verdade): a prótese ficou no para-brisa do veículo atropelador.

Levantou-se e, tal como um saci-pererê, foi em direção a janela do motorista e gritou: “Devolve minha perna!”. Pegou sua prótese, subiu em sua bicicleta e retornou ao seu passeio como se nada houvesse acontecido (enquanto o motorista permaneceu no local inerte, em estado de choque).

Terminou seu passeio e já resignado pelo seu destino de perneta, percebeu que, a partir daquele momento, a única alternativa que lhe restava para extravasar sua energia, sem correr riscos de acidentes, era escrever. Precisava ele sublimar a profunda tristeza que sentia diante da expectativa de uma vida que lhe traria certas limitações.

Entrou em casa, subiu para o quarto, ligou o desktop, abriu o editor de textos, sentou-se na cadeira da escrivaninha…

A cadeira quebrou, ele caiu no chão e sua mão esquerda sofreu uma fratura.

Fim.

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