Putaria

10:10. Porra, eu odeio acordar cedo, ainda mais sabendo de todas as picas que terei hoje. Mas ok, faz parte. Quanto antes eu acabar com essa merda, melhor.

11:00. Chego no gabinete e a secretária está com cara de quem acordou agora há pouco. Se tem algo que eu odeio é quando ela tem uma noite boa, porque o dia seguinte dela (e, claro, o meu) é ruim. Estou de saco cheio dessa puta.

– Bom dia, Dona Vera. – resmungo, sem disfarçar meu incômodo.

– Bom dia, seu Jairo! Aquele almoço que o senhor pediu está confirmado, tá?

– Ok. Pega aquelas anotações que o menino fez e traz aqui na minha sala. Quero falar com você.

Verinha já não é mais a mesma. Quando a conheci, enquanto fazia campanha numa região pobre da cidade, tinha um corpo de fazer inveja. Hoje é uma gorda que enche meu saco e que sabe que o que eu mais quero é ver ela bem longe dali! Eu detesto gente pobre – não sei como consigo disfarçar tão bem – mas a Verinha sabe demais e tenho que aturar. Não que compense, mas pelo menos ela não desaprendeu a chupar. Isso é indispensável numa secretária.

12:10. Leio o relatório de baboseiras que o estagiário preparou pra minha reunião. Na verdade o “relatório” é um resumo com uns oito tópicos, no máximo duas linhas cada. Demito quem não sabe resumir. Se eu quisesse ler, teria estudado Direito ou qualquer outra coisa. Tem que ser muito otário pra se dar ao trabalho de ficar lendo sei lá quantas mil páginas.

De olhos fechados, tentando memorizar o sexto tópico, bato acidentalmente no portarretrato em cima da minha mesa, enquanto gozo na boca da Verinha. “Sim, ela ainda sabe chupar” penso, ao mesmo tempo em que vejo os cacos de vidro quebrados sobre a foto dos meus filhos e noto a boca dela cheia de porra. “Mande consertar o vidro desse negócio de foto que minha mulher vai encher o saco se perceber que tirei daqui”. Ela balança a cabeça concordando. Limpo meu pau com o papel das anotações e jogo ele fora. Eu lembro dos cinco primeiros tópicos. Foda-se.

13:20. Chego pro almoço com os puxassacos. Confesso que pode até ser um almoço produtivo, mas esse é o melhor puteiro dessa cidade… Enquanto contamos histórias de viagem, só para descontrair, a mesma loira de sempre acaricia meu pau. Acho até que estamos falando alguma coisa útil sobre política, não sei muito bem. É difícil ter a exata noção quando se está bebendo uísque e pensando em sexo.

Não me aguento e subo para o quarto com a loira. Tomo meu comprimido azul e faço ela cavalgar no meu pau. Nem sempre se comanda a situação… Quando é confortável, especialmente por conta da minha barriga e idade, prefiro ficar por baixo.

16:50. De volta ao gabinete, os candidatos a prefeito de cinco cidades já me esperam na sala de reuniões para o encontro que marcamos para as 16:00. Entro e dou um abraço caloroso em cada um deles: sou ótimo em lembrar nomes e fisionomias, mas não faço ideia do que estão fazendo em suas cidades. Provavelmente, porra nenhuma. Ninguém se importa. Levanto e, sem introdução ou vaselina, começo a reunião berrando:

– Senhores, não sei que merda acontece na cidade de vocês, mas de uma coisa eu sei: qualquer brasileiro decente, de qualquer região, odeia viadagem. Por isso, minha sugestão para a campanha de vocês é uma só: família.

Faço uma pausa.

– Vamos resgatar os valores da família e pulverizar da nossa sociedade essa aberração promiscua chamada “gays”. Vamos acabar, na porrada (se preciso for), com toda essa frescura!

Os cinco sorriem.

– Mas antes de falarmos sobre como vamos fazer isso, façamos uma prece. Uma prece para agradecer a Deus pela benção, pela força e por mais um dia de graças alcançadas.

Amém.

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5 Comentários

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5 Respostas para “Putaria

  1. anônimo

    Interessante, você abordou bem a realidade de muitas pessoas que se dizem morais, mas praticam uma imoralidade sem tamanho.
    Mas claro que não se pode generalizar, há pessoas que possuem princípios e os segue. Mas este foi um bom exemplo do contrário.

  2. Li seu tweet mais aclamado nesse texto. Te adoro, Arturo.

  3. Pensar ou refletir sobre isso? Não sei ao certo, mas essa situação me parece ter a ver com outras situações que não se encontram apenas em locais de trabalho. Ótimo texto.

  4. Muito bom, Artur. Daria um episódio de A Vida Como Ela É.

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