Ticck Lopes e os dois milhões de “curtir”

Ticck Lopes… Eu nunca vou me esquecer desse nome.

Ticck era um típico garoto de internet. Aos dezenove anos de idade, Ticck estudava publicidade e tinha conseguido atingir um dos seus muitos sonhos: emplacar uma página de sucesso na internet. Em apenas duas semanas, Ticck conseguiu quase dois milhões de “curtir” e muita polêmica envolvendo sua criação.

“Ticck Lopes: esse cara é um fenômeno!” dizia o empolgado, mas lacônico, e-mail que recebi do meu chefe. Eu já o conhecia; era suficiente para eu saber o que deveria fazer.

Mandei um e-mail e marquei uma reunião com Ticck na mesma semana. A essa altura, ele já havia dado entrevistas para a televisão e sido matéria em todos os meios de comunicação possíveis, inclusive internacionais. Era uma espécie de Michel Teló do humor virtual.

No dia da reunião, Ticck parecia nervoso e ansioso. Bastaram quinze minutos para eu entender seu limite e convencê-lo do que queríamos: ele aceitou uma oferta de estágio e estava feliz por iniciar sua vida profissional. Ticck, criador de uma página que foi curtida por 1% dos brasileiros (ou 5% dos brasileiros que acessaram o Facebook nas duas últimas semanas), aceitou receber R$ 800 mensais e estava deslumbrado com a nossa estrutura. Apesar de sermos pequenos, temos máquina de café com diversos sabores e nosso pote de guloseimas com chocolates ajuda os colaboradores a trabalharem mais felizes. Ticck comeu 3 bombons durante a entrevista.

Despedi-me de Ticck e subi à sala do meu chefe para anunciar a contratação. “Os números do rapaz são impressionantes” – eu disse – “tão impressionantes que já há quem diga que Ticck é novo gênio das mídias virtuais”. Meu chefe, assim como a grande maioria das pessoas, é tarado por números e associa sucesso à genialidade. Recebi os parabéns e um tapinha nas costas. Era hora de tirar todo ouro que pudéssemos daquela mina.

Esperando o elevador para voltar ao meu andar, comecei a pensar na loucura que tudo aquilo era. Ticck não era gênio. Eu sabia disso, meu chefe sabia disso, talvez ele também. Ticck é um Zé Ninguém que criou uma página de plágios em um formato que foi plagiado de outras. Não havia nenhuma novidade ou algo que indicasse que existia motivos para o sucesso da página. Ela era banal, boçal, ordinária. Por que, então, fez sucesso?

Ticck era um medíocre acaso. Como The Monkeys, Keirrison e Celso Pitta. Coloque cinco barracas de hotdog idênticas, uma ao lado da outra, e peça para 100 pessoas, em fila, escolherem uma delas para comer. Cada barraca será escolhida por, aproximadamente, vinte pessoas, certo? Não. Provavelmente, alguma barraca terá setenta pessoas, porque elas tendem a escolher a mesma que os demais escolheram. Ticck era só um reflexo dessa casualidade que faz com que uma das cinco barracas seja escolhida, mesmo sem ter diferencial algum.

Mas barracas de hotdog não incomodam, tampouco lucram. Ticck incomodava. Mesmo sem querer, Ticck mexeu, com seus plágios, com o maior segredo de muitos dos que passam horas em redes sociais na internet: o sonho de ganhar dinheiro ou fama com ela.

Fazia tempo que não se via tantos blogueiros, twitteiros e “celebridades” da internet tão incomodados. Muitos dos quais, até então, não se cansavam de vociferar contra os que ficam reclamando de plágio porque “levam a internet a sério”. Naquela hora, porém, estavam revoltados. Talvez se olhassem no espelho e achassem injusto demais que tivessem destaque pífio enquanto o de Ticck era monstruoso. Era injusto mesmo. Como a vida.

O que ninguém admitia é que Ticck era só um filhotinho desses todos, que sempre acharam cool a cultura da libertinagem na internet. Nada mais coerente, agora que se sentiam prejudicados, do que continuarem “nem aí”.

O elevador chegou e voltei à minha estação de trabalho.

Tudo isso, porém, pouco importou. Para sorte dos plagiados, Ticck cometeu um erro que custou a sua página e seu emprego: admitiu o plágio. Pode parecer pouco, especialmente após o patético argumento de que os plágios foram feitos por um terceiro que trabalhava com ele (o que não alteraria sua responsabilidade como proprietário da página), mas Ticck havia acabado de fazer uma confissão de culpa. E, considerando-se que havia jurisprudência sobre plágio em conteúdo na internet, seu erro custou caro. Literalmente.

Pouco importa. De uma forma ou de outra, Ticck era só mais uma gota do chorume em que navegamos na internet. Como tal, se misturou às demais que um dia chamamos de geniais e desapareceu, até quase esquecermos.

Não foi assim também que aconteceu com o… Como é mesmo o nome dele?

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7 Comentários

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7 Respostas para “Ticck Lopes e os dois milhões de “curtir”

  1. Belo texto.Triste sacar que a maioria dos chefes em redações/agências (e qualquer área que trabalhe com criatividade) idolatra essas “bandas de um hit só” como se fossem os inventores da cura pro câncer. Gênios da modernidade. Mais triste é eles não enxergarem os verdadeiros talentos que trabalham ao lado deles, todos os dias – e que aguentam a excitação quase infantil perante essas bolhas de nada…

  2. Guilherme

    O texto definitivo sobre. Depois disso, não há mais nada o que se falar.

  3. Lucas Sousa

    Esse Ticck me lembra tanto alguém…
    Bom texto. O blog de vocês é esplendido.

  4. Ellen

    Arrazou! Belo texto, vou compartilhar. Adorei.

  5. Vagina indelicada. Só digo isso.

  6. O grande prêmio de um bom autor seria o reconhecimento, mas nesse mundo tão paradoxal não é de se admirar haver excessões…!

  7. Ia comentar, mas estou até agora pensando por onde começar. Parabéns!

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