Arquivo do mês: setembro 2012

Está desatado, desastrado!

Eu não sei dizer o que foi que distraiu o rapaz a ponto de fazê-lo esquecer de amarrar os sapatos naquela manhã fria. Deve ter sido apenas um desses pequenos eventos aleatórios da vida, aos quais não damos muita importância, mas que podem mudar tudo. O que sei dizer é que realmente mudou tudo.

Diego era um cara comum com a rotina comum de sempre cumprimentar os mesmos rostos comuns. Naquele comum dia acordou cansado disso. Acordou com uma vontade rompante de interação com desconhecidos. Diego estava enjoado das pessoas da sua vida e com os cordões dos sapatos pendendo ao lado dos pés. Mas não notou nenhuma das duas coisas.

Ele já estava na portaria do edifício que morava quando olhou para os pés e percebeu os cordões desatados, mas ignorou e demorou-se checando a caixa de correio até se atrasar para o trabalho. Notou que ninguém que passou por ele avisou sobre seu desleixo. Foi aí que Diego teve a estranha ideia de delegar a estranhos a tarefa de cuidar da vida dele. Decidiu que esperaria até que alguém avisasse que seu cadarço estava desamarrado para, só então, dar um jeito nisso. Acreditava ser importante para as pessoas.

No ônibus, a caminho do trabalho, começou a pensar sobre seus sapatos desamarrados. Tentou buscar na memória quando tinha aprendido a fazer um laço no tênis. Não conseguiu, mas lembrou de sua mãe mandando que amarrasse os sapatos. Analisou todas as pessoas que estavam a sua volta e não se davam ao trabalho de alertá-lo para o perigo iminente. Riu baixo da besteira que era o que estava fazendo. Ele mesmo não se recordava de um dia ter avisado alguém.

Estava exigindo de desconhecidos um cuidado que não lembrava de ter tido nem com pessoas próximas. Talvez apenas quisesse culpar alguém por alguma coisa. Esses pequenos autoboicotes fazem com que seja fácil levar as coisas da vida para o lado pessoal. É sempre mais cômodo que o resto do mundo seja o problema.

Diego morreu naquele dia, pouco depois das dezoito horas, quando bateu o pescoço no meio-fio da Avenida Atlântica, depois de pisar no cadarço solto e tropeçar nos próprios pés. Pouco antes do tombo bobo e fatal, Diego havia decidido que, no dia seguinte, iria para o trabalho com a camisa virada do avesso. Era mais seguro.

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O carrinho de sorvete

Ainda que diferente dos meninos da sua idade, por conta da sua inteligência e maturidade, Pablo era um típico garoto de doze anos, cheio de sonhos e com uma vida inteira pela frente. Nascido em uma cidade do interior de Minas Gerais, aprendera com o pai que “quem acredita sempre alcança” e que não devemos nunca desistir dos nossos sonhos. E ele tinha muitos.

Eram quase onze da manhã quando Pablo sentou no meio fio em frente à sua casa, como fazia todos os dias. Com braços cruzados sobre os joelhos retraídos na direção ao peito, queixo repousado sobre o antebraço, pés agitados tamborilando sobre o asfalto e olhar perdido no horizonte, Pablo aguardava ansioso e pensativo a chegada do carrinho de sorvete, ponto alto do seu dia. Sua mente era um turbilhão de emoções e pensamentos que, com aquela pequena porção gelada de sabores de fruta açucarados, se acalmava e ficava em paz. Pablo era um sonhador.

Embora aprendesse muitas coisas com o pai, Pablo queria ter outra vida. Não que não o admirasse, mas seu pai tinha uma história por demais medíocre, casando-se com a namorada da escola (sua mãe) e trabalhando há vinte anos no mesmo emprego. Pablo queria mais. Queria se mudar dali e fazer carreira como ator de cinema. Dedicaria o que fosse necessário para isso; a certeza do sucesso o tornaria imbatível. “Eu acredito” – costumava repetir essa frase para si mesmo durante as mais diversas situações, uma espécie de mantra que lhe dava confiança para jamais desistir.

Imerso nos pensamentos onde imaginava os papéis que, um dia, interpretaria, Pablo quase não percebeu que já passava das onze. O carrinho de sorvete não costumava se atrasar, e a mente de Pablo precisava daquilo. Afinal, a carreira de um ator é recheada de pressões de todos os tipos, começando nas dificuldades para se conseguir boas oportunidades e terminando na ferocidade das críticas.

As mãos de Pablo começaram a suar. “Seriam os diretores tão frios e cruéis como nosso imaginário sugere?”, pensou. “Deve ser complicado, quase impossível, decorar tantas falas e ainda interagir com outros atores, demonstrando emoções através da voz, do corpo e das feições faciais. Além disso, existem as intrigas. E as fofocas, inúmeras fofocas! Não são raras as histórias de traições no meio, onde muitos faziam de tudo pelo estrelato. Festas regadas a sexo, drogas e álcool parecem divertidas, mas quem, se não os fisicamente avantajados, faria sucesso numa situação dessas? Fora o sotaque. Como disfarçarei o sotaque? Capiaus não costumam ser galãs!”

Pablo suava cada vez mais, e nem sinal do carrinho de sorvete. Já passava das onze e meia quando sua mãe o chamou para almoçar, mas ele se recusou a levantar. Disse a ela que não estava com fome, tentando parecer o mais tranquilo possível. Pablo jamais desistiria. Aquele era seu sonho, sua carreira, seu estrelado. Não seria covarde como seu pai, que trocou tudo por um pouco de arroz e feijão. Sonhos exigem dedicação, persistência. Pablo não se levantaria enquanto o carrinho de sorvete não chegasse.

Enquanto esperava sentado no meio-fio, uma tempestade se aproximou lentamente. Pablo viu o sol, até então radiante, ser calmamente engolido pelas nuvens, sem oferecer resistência. A escuridão tomou conta da rua e apanhou seu horizonte. Estava tenso; sua respiração ficou ofegante e repetia para si mesmo, ininterruptamente, em voz baixa: “eu acredito, eu acredito, eu acredito”.

Já passava do meio dia quando as primeiras gotas atingiram a cabeça de Pablo. Dezenas, centenas, milhares de gotas se juntaram às primeiras e ensoparam o garoto, que tremia encolhido no meio fio.

“Eu acredito”.

A tormenta sobre sua cabeça ficava cada vez mais forte, mas ele jamais desistiria. Pablo permaneceu ali, sentado no meio fio, esperando o carrinho de sorvete.

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Telefonema

– Alô?

– Alô, quem gostaria?

– Gostaria de quê, especificamente?

– Quem gostaria de falar, ué!

– E isso como eu vou saber? Acho que quem não aprendeu a falar que gostaria, você não?

– Deixe de brincadeiras e diga logo quem fala!

– Todo mundo fala, excluindo aqueles que não conseguem. O colega tem conhecimento do problema de mudez que…?

– Mas quem é que está falando?

– Milhões de pessoas veja só! Inclusive nós dois, ora bolas..

– Vamos com isso! Diga quem é aí do outro lado falando comigo!

– Ah, aqui sou eu.

– Quem seria “eu”?

– Como é que eu vou saber, se nem o rapaz sabe? Diga você quem é.

– Mas foi você quem ligou pra cá! Você é quem deve dizer!

– Eu não conheço você. Nem sei se é com você que devo falar.

– E com quem é que o senhor deve falar?

– Com Fulano.

– Não, aqui não tem Fulano algum!

– Então o amigo desculpa, que foi engano. Tchau.

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O Pirata

O plantão começara numa noite de sexta de muita chuva. Movimento na delegacia com gente chegando e saindo. Muitos barulhos e em bom volume eram inevitáveis. Tudo aquilo configurava um quadro que José Carlos não desejava. Já se sentia velho para uma função que assumiu tarde demais na vida. Passou no concurso para delegado de polícia depois dos quarenta e cinco anos por insistência da mulher.

Chegou à sua mesa rogando praga contra o guarda-chuva esquecido em algum lugar. O cabelo ainda pingava sobre alguns papéis deixados por alguém. Gostaria de ser mais organizado às vezes. Dessa forma teria realizado mais e melhor os seus projetos de vida. Agora só conseguia pensar quando aquele plantão iria terminar.

Em busca de um café foi passando pelo corredor. Parou para falar com os colegas, outros cumprimentou com a cabeça. Andando ainda falou do Fluminense ou do ventilador quebrado. Torcia pelos dois: o time e o bom funcionamento do aparelho. Ambos faziam muita falta: por causa do excesso de volantes no meio-campo e dos incontáveis dias de calor.

Alguém o chamou pelo sobrenome. No fundo não gostava de ser chamado assim. Pensava estar chamando por seu pai, ou seu avô. Uma ilusão auditiva. Demorou a se acostumar com isso. O Évio tinha vindo da rua, chegou molhado também. Bom garoto, bastante profissional. Viu muito filme de tiro na juventude. Disse que precisava de auxílio com um senhor que trouxe da rua. Além do mais se não visse aquilo poderia ficar desacreditado. José Carlos foi atrás de forma mecânica, quase se arrastando.

Um senhor regulando com a sua idade. Podia ter netos até. Usava uma bandana na cabeça e um colete. Sentou-se à mesa com o velho do outro lado. Évio soprou ao seu ouvido se tratar de um pirata. Nunca se vira algo parecido naqueles anos de polícia. José Carlos achou que aquilo devia ser sacanagem. Fez menção de levantar-se quando foi demovido pelo jovem colega a sentar e ouvir o resto. Não acreditava que ele ia insistir em alguma piada e deu um crédito ao rapaz.

Se era pirata não usava tapa-olho e isso foi quase uma decepção. Évio despejou em cima da mesa o que apreendeu do senhor. Um gancho com uma base na qual que ele colocava a mão por dentro, segurando-o pelo ferro e um arcabuz. Achou linda aquela peça, cheia de adornos, muito bem conservada (se conseguisse, levaria para casa). José Carlos sentiu-se velho e obsoleto como aquela primitiva pistola.

Perguntou se ele cometera algum crime. Por que fora detido. Era crime ser pirata? Afinal, a Esquadra Espanhola não ia aparecer na Praça XV. O impacto da surpresa daquele bucaneiro na sua presença aniquilara essas dúvidas. Évio disse que aquele estava causando transtorno aos passantes. Algumas senhoras reuniram-se para chamar a polícia quando ele passou e desceu para ver do que se tratava.

O delegado não achou graça. Na verdade, estava fascinado. Os amigos da rua preferiam os cowboys. Brincadeiras de tiros com a boca, cavalos de cabo de vassoura e diligências de bicicletas. José Carlos preferia navegar em busca de tesouros de chocolate e galeões de sofá. Sempre desejou ser valente como um pirata. Outras crianças ainda gostariam de ser astronautas.

Por um minuto chegou a odiar todo mundo que não fosse pirata. Detestar aquele ambiente de trabalho que não suportava. Os pais que não o incentivaram. Preferiam que ele fosse contador. A mulher impondo a ele ser algo para ela ter outra casa, outro carro. Aquele senhor, sim, que ousara sonhar. Estava disposto a montar sua tripulação e singrar os mares quando foi impedido por velhas rancorosas que não sabem o que é uma bujarrona e o quanto vale uma onça espanhola.

José Carlos lembrou dos bailes de carnaval da sua juventude. Não de forma jocosa, mas de como gostava de se fantasiar (não abria mão do tapa-olho) e de viver a fantasia. Lembrou da banda que montou com os vizinhos e deu a sugestão do nome “Os Corsários”. Do sucesso que faziam na matinês e nos bailes, os mesmos da infância. Queria ser Lennon, queria ser McCartney, queria ser Harrison, queria ser Starr. A estrela apagou e ele tinha que ser alguém na vida. Ele era agora um fantasma dos carnavais passados.

Pediu ao Évio que retivesse o gancho e o arcabuz. Deveria fazer contato com algum familiar do idoso e encaminhá-lo aos assistentes sociais, se necessário. Era noite de sexta-feira, chovia muito, a delegacia estava cheia, não tinha ventilador e o plantão estava só começando. Não tinha conseguido ainda nem tomar um café.

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Relógio

Deu-se que precisava de um relógio. Um desses que a gente bota no braço, esquece de tirar e quando tira ganha uma marca de bronzeado no pulso, uma provocação no lugar errado. Queria o relógio. Mais do que isso: precisava dele. Era um desses homens que se esquecem da vida quando todos estão cansados de se lembrar. Ficava parado enquanto todos os coelhos da Alice corriam, gritando estarem atrasados com nenhum motivo aparente.

Sem perder tempo, foi buscar pelo relógio. Sabia onde encontrar, quem não sabe? Acontece que, além de distraído, era peculiar. Não queria um daqueles que todo mundo quer. Queria um espetacular, extraordinário, sensacional. Queria ver o tempo passar sem deixar que escapasse, percebendo seus movimentos e participando deles, como um ponteiro extra no corpo do aparelho.

Na busca pelo utensilio, perdia seus minutos observando aqueles que já possuíam um. Com um misto de inveja e vaidade, caminhava pelas ruas (era distraído a ponto de evitar as calçadas) a procura de seu próprio. Inveja pela ânsia de não ter conseguido um antes de todos aqueles idiotas que nem se davam ao trabalho de observar o belo movimento das horas. Vaidade por estar prestes a ter um melhor que o deles, novo, maior e mais interessante.

Chegou ao destino. Cansado e animado, não via a hora de poder vê-la. Escolheu, depois de um longo tempo, aquele que melhor lhe caía; melhor caía a ele e a ninguém mais. Caminhou para casa exibindo aquilo que os outros não se interessaram a ver. Vaidoso de ter agora o tempo que nunca teve, prendeu bem a pulseira ao pulso. Passou dois dias encarando o circulo perfeito feito por mecanismos impressionantes. Tinha agora horas de sobra pra saborear. Findo esse período foi se ocupar com qualquer outra coisa mais urgente e acabou tirando o relógio. Procrastinou pra voltar a colocá-lo e não colocou. Talvez outra hora.

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Minha vida de cão

“Eu já não te conheço de algum lugar?” – foi assim, sentada num bar no sábado à noite, ouvindo a mais clichê e mentirosa das cantadas, que conheci Alexandre.

Alexandre era um tipo comum, mas com algumas ideias genuinamente diferentes, ainda que sua introdução tenha dito o contrário. Apesar de pseudomisterioso, tinha uma visão sobre a vida que chamou minha atenção tanto pelas peculiaridades, quanto pelos absurdos. Alê, como passei a chamá-lo depois de alguns poucos minutos, achava que as diferenças básicas entre humanos e cachorros eram o ego, o humor e a capacidade de disfarçar as reais intenções. E, não por acaso, acreditava que essas intenções eram alimentar o ego, rir e transar.

Se a ideia de Alê era disfarçar suas intenções, ele começou muito mal. As minhas, porém, só eu sabia: queria beber e me divertir vendo se todo aquele papo dele conseguiria fazer com que transássemos. Inclusive, eu queria beber exatamente para esquecer como esses papos costumam ser entediantes. Não é fácil, aos vinte e um anos, se acostumar com a ideia de que não existe nada real que seja remotamente parecido com o homem dos nossos sonhos.

Alê pagou mais bebidas, pois achava que isso me deixaria mais fácil. Ele tinha razão. Beber me deixa solta e cheguei até a rir com ele. Não que ele fosse engraçado, eu ria muito mais dele do que das suas nada originais piadas. Alê nem notava a diferença; seios são informações suficientes para o cérebro masculino, sobrava muito pouco espaço para processar outras coisas. Não que eu seja maravilhosa, mas muitos quase bêbados cheirosos querem transar comigo. Transar com eles é quase tão bom quanto dispensá-los, mas ocasionalmente me lembro que ter chocolate como única fonte de serotonina não faz bem.

Enquanto Alê tentava me impressionar com suas banalidades profissionais chatíssimas, comecei a pensar no que ele tinha dito antes. Não somos cachorros, mas não deixamos de ser. Alê havia discursado sobre como os animais fazem o que querem sem se importar com os outros, e disse que isso seria um grande paradoxo se fosse aplicado aos humanos. Na teoria dele, se importar menos com os outros faria com que todos se importassem menos sobre quanto os outros se importam. Confuso, mas fazia sentido.

Não sei se por estar bêbada, por concordar ou por não transar havia dois meses, resolvi ficar com ele. Ele não era feio, eu já tinha bebido o suficiente e a conversa estava ficando cada vez mais chata. Ignorei o que ele falava (não me dei nem ao trabalho de fingir que ouvia) e disse que ia ao banheiro e que ele deveria aparecer por lá em dois minutos. Sua cara se transformou num misto de incompreensão e satisfação. Acho que ele estava em dúvida se conseguiu o que queria ou talvez se perguntasse o que fez para conseguir.

Entrei no banheiro, tirei a calcinha por baixo da saia e guardei na minha bolsa. Retoquei meu batom, arrumei meu cabelo e, nesse momento, ele bateu à porta. Abri, puxei Alê para dentro e fiz o que eu queria. Antes que ele pudesse gozar, eu já tinha aproveitado meu orgasmo e estava saindo.

Com passos rápidos e decididos, fui para fora do bar e peguei o primeiro taxi que vi, direto pra casa. Alê que se virasse sozinho com a conta do bar, a vontade de gozar e as lembranças do que eu fiz. É isso que cachorros merecem.

Eu poderia jurar que nunca mais encontraria Alê, mas o tempo passou e a vida me pregou uma dessas peças que jamais entendemos. Dois meses depois, sentada sozinha em um bar, esperando algumas amigas atrasadas, vejo Alê se aproximar de mim e sentar à minha mesa.

“Oi” – ele disse – “eu já não te conheço de algum lugar?”. Dei risada. Sem dizer nada, levantei da mesa, peguei minha bolsa e fui em direção ao banheiro retocar minha maquiagem. Entrei e encostei a porta, sem trancar. Não demorou para ele bater. Abri apenas uma fresta e, antes de fechar, disse olhando em seus olhos: Eu já não te ignoro de algum lugar?

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Nada de interessante

Deu um jeito para conseguir sair do trabalho mais cedo. Avisou que tinha médico marcado no meio da tarde. Só tinha conseguido aquele horário (era ruim, ele sabia) porque se tratava de um doutor muito concorrido na cidade. Um bom médico judeu de muito conceito. Depois dos trinta, já viu, é ladeira abaixo. Tem que se cuidar, fazer check-up de tempos em tempos e se reciclar com as novas normas ortográficas. Essas manobras não eram problema e ele dava um jeito de fazer isso sempre que podia, tomando cuidado para não banalizar o ato.

Chegou em casa, jogou as chaves na mesa e ligou logo a televisão. Era dia de final de campeonato europeu. Final de temporada era aquela correria e nada como uma consulta estratégica no bolso para sacar uma saída providencial do trabalho. Chegara exatamente no momento das escalações dos times e aproveitou para tirar os sapatos enquanto passava os olhos nos nomes dos jogadores. Fulano de tal não joga hoje, machucado, e um sapato voava pelo canto do apartamento.

Não que Henrique fosse grande fã de futebol, mas a oportunidade de burlar o trabalho numa tarde de quarta-feira era um poderoso afrodisíaco. Na época do colégio ele praticava esportes e chegou a jogar hóquei no gelo quando fez intercâmbio nos Estados Unidos. Estudou os últimos dois anos escolares em Saint Paul e foi eleito o melhor estrangeiro da liga estudantil de Minnesota. Por causa disso foi disputado por universidades que lhes ofereceram bolsas estudantis e todas as vantagens advindas do fato de ser estrela do esporte.

Estava bem encaminhado na vida se não fosse por um acidente de carro que lhe tirou um percentual de visão periférica e alguma articulação do cotovelo. Ficou desiludido e voltou para o Brasil. Foi ao centro da cidade em busca de algum emprego, entretanto não tinha treinamento, experiência ou habilidade específica. Por intermédio de um tio, ou parente próximo, conseguiu emprego no banco onde trabalha até hoje. Seu maior plano até então era se aposentar com saúde pela previdência social.

Dormiu antes do final do primeiro tempo e quando acordou já estava escuro. Acreditava que a desvantagem de morar sozinho era a de que em momentos como esse tudo parecia abandonado até que você mesmo se levantasse e fosse acendendo as luzes para dar vida à casa. O telejornal da noite deixava de iluminar seu pequeno mundo. Passava um chato que gritava. Desliga a televisão e abre a geladeira. Enquanto admirava seu conteúdo, coçava a barriga por baixo da camisa durante um longo bocejo. Nada de interessante.

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