Minha vida de cão

“Eu já não te conheço de algum lugar?” – foi assim, sentada num bar no sábado à noite, ouvindo a mais clichê e mentirosa das cantadas, que conheci Alexandre.

Alexandre era um tipo comum, mas com algumas ideias genuinamente diferentes, ainda que sua introdução tenha dito o contrário. Apesar de pseudomisterioso, tinha uma visão sobre a vida que chamou minha atenção tanto pelas peculiaridades, quanto pelos absurdos. Alê, como passei a chamá-lo depois de alguns poucos minutos, achava que as diferenças básicas entre humanos e cachorros eram o ego, o humor e a capacidade de disfarçar as reais intenções. E, não por acaso, acreditava que essas intenções eram alimentar o ego, rir e transar.

Se a ideia de Alê era disfarçar suas intenções, ele começou muito mal. As minhas, porém, só eu sabia: queria beber e me divertir vendo se todo aquele papo dele conseguiria fazer com que transássemos. Inclusive, eu queria beber exatamente para esquecer como esses papos costumam ser entediantes. Não é fácil, aos vinte e um anos, se acostumar com a ideia de que não existe nada real que seja remotamente parecido com o homem dos nossos sonhos.

Alê pagou mais bebidas, pois achava que isso me deixaria mais fácil. Ele tinha razão. Beber me deixa solta e cheguei até a rir com ele. Não que ele fosse engraçado, eu ria muito mais dele do que das suas nada originais piadas. Alê nem notava a diferença; seios são informações suficientes para o cérebro masculino, sobrava muito pouco espaço para processar outras coisas. Não que eu seja maravilhosa, mas muitos quase bêbados cheirosos querem transar comigo. Transar com eles é quase tão bom quanto dispensá-los, mas ocasionalmente me lembro que ter chocolate como única fonte de serotonina não faz bem.

Enquanto Alê tentava me impressionar com suas banalidades profissionais chatíssimas, comecei a pensar no que ele tinha dito antes. Não somos cachorros, mas não deixamos de ser. Alê havia discursado sobre como os animais fazem o que querem sem se importar com os outros, e disse que isso seria um grande paradoxo se fosse aplicado aos humanos. Na teoria dele, se importar menos com os outros faria com que todos se importassem menos sobre quanto os outros se importam. Confuso, mas fazia sentido.

Não sei se por estar bêbada, por concordar ou por não transar havia dois meses, resolvi ficar com ele. Ele não era feio, eu já tinha bebido o suficiente e a conversa estava ficando cada vez mais chata. Ignorei o que ele falava (não me dei nem ao trabalho de fingir que ouvia) e disse que ia ao banheiro e que ele deveria aparecer por lá em dois minutos. Sua cara se transformou num misto de incompreensão e satisfação. Acho que ele estava em dúvida se conseguiu o que queria ou talvez se perguntasse o que fez para conseguir.

Entrei no banheiro, tirei a calcinha por baixo da saia e guardei na minha bolsa. Retoquei meu batom, arrumei meu cabelo e, nesse momento, ele bateu à porta. Abri, puxei Alê para dentro e fiz o que eu queria. Antes que ele pudesse gozar, eu já tinha aproveitado meu orgasmo e estava saindo.

Com passos rápidos e decididos, fui para fora do bar e peguei o primeiro taxi que vi, direto pra casa. Alê que se virasse sozinho com a conta do bar, a vontade de gozar e as lembranças do que eu fiz. É isso que cachorros merecem.

Eu poderia jurar que nunca mais encontraria Alê, mas o tempo passou e a vida me pregou uma dessas peças que jamais entendemos. Dois meses depois, sentada sozinha em um bar, esperando algumas amigas atrasadas, vejo Alê se aproximar de mim e sentar à minha mesa.

“Oi” – ele disse – “eu já não te conheço de algum lugar?”. Dei risada. Sem dizer nada, levantei da mesa, peguei minha bolsa e fui em direção ao banheiro retocar minha maquiagem. Entrei e encostei a porta, sem trancar. Não demorou para ele bater. Abri apenas uma fresta e, antes de fechar, disse olhando em seus olhos: Eu já não te ignoro de algum lugar?

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1 comentário

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Uma resposta para “Minha vida de cão

  1. Denis Vinicius

    Mulheres agindo como homens… Acho que finalmente alcançaram a igualdade que por tanto tempo almejaram.

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