O carrinho de sorvete

Ainda que diferente dos meninos da sua idade, por conta da sua inteligência e maturidade, Pablo era um típico garoto de doze anos, cheio de sonhos e com uma vida inteira pela frente. Nascido em uma cidade do interior de Minas Gerais, aprendera com o pai que “quem acredita sempre alcança” e que não devemos nunca desistir dos nossos sonhos. E ele tinha muitos.

Eram quase onze da manhã quando Pablo sentou no meio fio em frente à sua casa, como fazia todos os dias. Com braços cruzados sobre os joelhos retraídos na direção ao peito, queixo repousado sobre o antebraço, pés agitados tamborilando sobre o asfalto e olhar perdido no horizonte, Pablo aguardava ansioso e pensativo a chegada do carrinho de sorvete, ponto alto do seu dia. Sua mente era um turbilhão de emoções e pensamentos que, com aquela pequena porção gelada de sabores de fruta açucarados, se acalmava e ficava em paz. Pablo era um sonhador.

Embora aprendesse muitas coisas com o pai, Pablo queria ter outra vida. Não que não o admirasse, mas seu pai tinha uma história por demais medíocre, casando-se com a namorada da escola (sua mãe) e trabalhando há vinte anos no mesmo emprego. Pablo queria mais. Queria se mudar dali e fazer carreira como ator de cinema. Dedicaria o que fosse necessário para isso; a certeza do sucesso o tornaria imbatível. “Eu acredito” – costumava repetir essa frase para si mesmo durante as mais diversas situações, uma espécie de mantra que lhe dava confiança para jamais desistir.

Imerso nos pensamentos onde imaginava os papéis que, um dia, interpretaria, Pablo quase não percebeu que já passava das onze. O carrinho de sorvete não costumava se atrasar, e a mente de Pablo precisava daquilo. Afinal, a carreira de um ator é recheada de pressões de todos os tipos, começando nas dificuldades para se conseguir boas oportunidades e terminando na ferocidade das críticas.

As mãos de Pablo começaram a suar. “Seriam os diretores tão frios e cruéis como nosso imaginário sugere?”, pensou. “Deve ser complicado, quase impossível, decorar tantas falas e ainda interagir com outros atores, demonstrando emoções através da voz, do corpo e das feições faciais. Além disso, existem as intrigas. E as fofocas, inúmeras fofocas! Não são raras as histórias de traições no meio, onde muitos faziam de tudo pelo estrelato. Festas regadas a sexo, drogas e álcool parecem divertidas, mas quem, se não os fisicamente avantajados, faria sucesso numa situação dessas? Fora o sotaque. Como disfarçarei o sotaque? Capiaus não costumam ser galãs!”

Pablo suava cada vez mais, e nem sinal do carrinho de sorvete. Já passava das onze e meia quando sua mãe o chamou para almoçar, mas ele se recusou a levantar. Disse a ela que não estava com fome, tentando parecer o mais tranquilo possível. Pablo jamais desistiria. Aquele era seu sonho, sua carreira, seu estrelado. Não seria covarde como seu pai, que trocou tudo por um pouco de arroz e feijão. Sonhos exigem dedicação, persistência. Pablo não se levantaria enquanto o carrinho de sorvete não chegasse.

Enquanto esperava sentado no meio-fio, uma tempestade se aproximou lentamente. Pablo viu o sol, até então radiante, ser calmamente engolido pelas nuvens, sem oferecer resistência. A escuridão tomou conta da rua e apanhou seu horizonte. Estava tenso; sua respiração ficou ofegante e repetia para si mesmo, ininterruptamente, em voz baixa: “eu acredito, eu acredito, eu acredito”.

Já passava do meio dia quando as primeiras gotas atingiram a cabeça de Pablo. Dezenas, centenas, milhares de gotas se juntaram às primeiras e ensoparam o garoto, que tremia encolhido no meio fio.

“Eu acredito”.

A tormenta sobre sua cabeça ficava cada vez mais forte, mas ele jamais desistiria. Pablo permaneceu ali, sentado no meio fio, esperando o carrinho de sorvete.

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9 Comentários

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9 Respostas para “O carrinho de sorvete

  1. Carlos Pereira

    Texto sem graça…aff’

  2. Acho que eu também sou muito sem graça então, porque eu adorei o texto! 😉

  3. Aléxia

    Ficou muito bom seu texto, espero que um dia todos os textos desse saite se tornem um livro para serem ~eternizados~ ao longos dos anos, parabéns 😀

  4. Carlos Pereira

    Por enquanto os melhores são da djex,apesar de saber que você arturcaneda,tem capacidade cognitiva suficiente pra fazer textos bem mais interessantes que esse!

  5. Muito bom mesmo, cara. Emocionante até.

  6. Fabio

    Não sei bem o que é capacidade cognitiva, mas eu gostei do texto. E paguei baratinho para lê-lo.

  7. Lucas Sousa

    Eu gostei bastante do seu texto. Lembrou a época que eu era mais novo, sonhador. Quem dera todos fossem como esse garoto, esperassem o carrinho de sorvete, mesmo em meio a tormenta.

  8. anônimo

    legal seu texto assim como seus tweets, não entendi quase nada. 🙂 LINDO.

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