Está desatado, desastrado!

Eu não sei dizer o que foi que distraiu o rapaz a ponto de fazê-lo esquecer de amarrar os sapatos naquela manhã fria. Deve ter sido apenas um desses pequenos eventos aleatórios da vida, aos quais não damos muita importância, mas que podem mudar tudo. O que sei dizer é que realmente mudou tudo.

Diego era um cara comum com a rotina comum de sempre cumprimentar os mesmos rostos comuns. Naquele comum dia acordou cansado disso. Acordou com uma vontade rompante de interação com desconhecidos. Diego estava enjoado das pessoas da sua vida e com os cordões dos sapatos pendendo ao lado dos pés. Mas não notou nenhuma das duas coisas.

Ele já estava na portaria do edifício que morava quando olhou para os pés e percebeu os cordões desatados, mas ignorou e demorou-se checando a caixa de correio até se atrasar para o trabalho. Notou que ninguém que passou por ele avisou sobre seu desleixo. Foi aí que Diego teve a estranha ideia de delegar a estranhos a tarefa de cuidar da vida dele. Decidiu que esperaria até que alguém avisasse que seu cadarço estava desamarrado para, só então, dar um jeito nisso. Acreditava ser importante para as pessoas.

No ônibus, a caminho do trabalho, começou a pensar sobre seus sapatos desamarrados. Tentou buscar na memória quando tinha aprendido a fazer um laço no tênis. Não conseguiu, mas lembrou de sua mãe mandando que amarrasse os sapatos. Analisou todas as pessoas que estavam a sua volta e não se davam ao trabalho de alertá-lo para o perigo iminente. Riu baixo da besteira que era o que estava fazendo. Ele mesmo não se recordava de um dia ter avisado alguém.

Estava exigindo de desconhecidos um cuidado que não lembrava de ter tido nem com pessoas próximas. Talvez apenas quisesse culpar alguém por alguma coisa. Esses pequenos autoboicotes fazem com que seja fácil levar as coisas da vida para o lado pessoal. É sempre mais cômodo que o resto do mundo seja o problema.

Diego morreu naquele dia, pouco depois das dezoito horas, quando bateu o pescoço no meio-fio da Avenida Atlântica, depois de pisar no cadarço solto e tropeçar nos próprios pés. Pouco antes do tombo bobo e fatal, Diego havia decidido que, no dia seguinte, iria para o trabalho com a camisa virada do avesso. Era mais seguro.

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11 Comentários

Arquivado em @djex

11 Respostas para “Está desatado, desastrado!

  1. Carlos Pereira

    Muito bom!Nos leva a refletir sobre a vida!Vamos nós mesmos,atar os nossos cadarços do dia-a-dia.

  2. Mhoab

    muito bom, muito bom mesmo ! #refletindo

  3. Anônimo

    amuh os textos da djex…

  4. Lucas Sousa

    Muito bom, o seu texto. Realmente, nós não nos preocupamos com os outros, apenas seguimos a rotina.

  5. Anônimo

    Ótimo texto. Tags engraçadíssimas, principalmente “dá o pé loro!” e “se era sapatênis foi merecido mesmo”… Meus cumprimentos Djex! 🙂

  6. anônimo

    Amei o primeiro da Gvn e este daqui, que riqueza!!!

  7. O lanço do cadarçoe da mãe avisar, lembrei de A insustentável leveza do ser

  8. cara, texto muito legal.
    tenho um irmão Diego, esperei todo o texto alguém avisá-lo.
    o caso é digno de manchetes dos mais populares jornais.
    tá de parabéns

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