Arquivo do mês: outubro 2012

Mal passado

Pablo odiava bife bem passado. Gostava de carne bem vermelha, daquelas que você vê muito sangue escorrer já no primeiro corte.

*

Sexta-feira, no finalzinho do expediente, Pablo foi chamado à sala do chefe.

– Pablo, senta aqui um minutinho.

– Ok.

– Você sabe que perto do final do semestre nós fazemos algumas reestruturações na empresa…

– Sei.

– … e esse foi um semestre difícil. Infelizmente nossa diretoria ficou com resultado abaixo do esperado e vamos ter que fazer alguns cortes. Rotina. Você se lembra dos outros semestres.

– Lembro.

– Bom. Olha, além disso, também é importante dar oportunidades para outras pessoas. A empresa precisa se modernizar constantemente, oxigenar. Você entende.

– Claro.

– Ótimo. Organizei a lista de alterações e resolvi chamar os envolvidos individualmente. Dar um feedback para não pegar ninguém desprevenido e ser justo com todos. Resolvi começar por você.

– Sim.

– É o seguinte, Pablo: vou demitir o João e promover você para a vaga dele. Segunda-feira chamarei a equipe para fazer o anúncio a todos. Meus parabéns e obrigado por sua dedicação. Conto com você e confio no seu potencial!

Pablo tentou, mas não conseguiu dizer nada, apenas abraçou repentinamente o chefe e saiu da sala. Agitado, passou rápido por sua mesa, agarrou o paletó, desligou o computador e correu para casa para contar à esposa o que havia acontecido.

Chegando em casa, a esposa de Pablo o esperava com o jantar à mesa. Ela disse “oi” e deu um sorriso torto que quase não saiu. Pablo retribuiu o cumprimento e sentou-se. Ainda agitado, colocou arroz em seu prato, uma concha de feijão, um pouco de cebola e dois bifes. Lembrou-se automaticamente da infância onde comia arroz e feijão com ovo, pois não tinham dinheiro para comprar carne. Havia se dedicado muito para, hoje, poder comer dois.

Pablo espetou o bife com o garfo e começou a tentar cortá-lo com a faca. Não conseguiu. Estava duro e muito bem passado, dificílimo de ser cortado. Ele odiava bife bem passado. Em vão, aumentou a velocidade dos movimentos, mas isso só marcou a carne, que parecia impossível de ser penetrada.

“Vou buscar o suco na geladeira”, disse a esposa.

Pablo tirou a faca do bife. Segurando-a com a mão direita, colocou-a em seu pulso esquerdo e começou a serrar compulsivamente, como fizera com a carne. A faca penetrou seu braço como se fosse manteiga, jorrando sangue já no primeiro corte. Ele só parou quando ela chegou ao osso.

Seu prato ficou coberto de sangue, que manava pelo pulso e escorria por seu corpo.

– Amor, deixe o suco para lá. Corre aqui, tenho uma novidade que vai mudar nossas vidas.

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Esperando no bar

Estávamos voltando para casa quando ela resolveu passar no mercado. Algumas compras eram necessárias e até mesmo urgentes, insistia. Eu estava de mau humor e disse que esperaria no bar da frente. Em pé ao balcão beberia cerveja gelada, talvez comesse um pastel frio. Nosso amor já durava oito anos e era desesperador que ninguém decretasse seu fim. Ainda a avistei saindo com duas sacolas tentando se equilibrar como uma balança. Não me mexi para ajudar e esperaria que ela atravessasse a rua para tomar qualquer atitude. Estava cansado e a cerveja gelada ainda por acabar. Ela atravessava a rua meio sem jeito quando a sacola rompeu. Antes mesmo de entender o que tinha rolado no chão, um carro a atropelou. Seu couro cabeludo voou como um escalpo depois da sua cabeça arrastar no chão. Só depois consegui ver as latas de Coca Zero sambando no asfalto até o meio-fio. Aquilo não era tão necessário que justificasse a ida ao mercado.

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Politicagem

Eu prometo! Eu juro! Eu sei! Eu posso! Eu vou! Eu mesmo! Em mim! Por mim! Pra mim! Eu quero o que você quer e, se você quer, eu faço! Você precisa, eu dou! Você me escuta, eu falo! Você me apoia, eu pago! Você me aceita, eu ajo! Você me eleva, não caio! Você me vê, eu saio! Você me procura, eu não te acho! Nós colaboramos, eu falho! Você reclama, eu ralho! Você proclama, eu reajo! Você diz “escândalo”, eu abafo! Você mostra as cartas, eu embaralho! Você grita, eu embalo! Você protesta, eu ensaio! Você sofre, eu viajo! Você constrói, eu escangalho! Você trabalha, eu desmaio! Você diz povo, e eu, salário! É por você, só que ao contrário.

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Não deixe para amanhã

Nos momentos introspectivos que precedem o sono, numa noite dessas comuns de meio de semana, João percebeu que seu trabalho não era o que queria. Decidiu que pediria demissão e arranjaria um trabalho fácil que lhe desse tempo para decidir o que realmente gostava. Fez mil planos até esgotar a mente e pegar no sono. João estava cansado.

Acordou em cima da hora na manhã seguinte. Precisava correr para chegar na hora no trabalho, no horário de almoço precisava pagar algumas contas do chefe e à noite tinha a pós-graduação. Enquanto escovava os dentes com pressa, encarou sério seu reflexo no espelho. Seus pensamentos libertários da noite anterior foram substituídos pela mania de repassar as obrigações diárias. João estava atrasado.

Pouco tempo depois, numa noite repetida de sono arisco, João lembrou do que havia planejado, um dia, antes de dormir. Retomou aqueles pensamentos como quem volta para um sonho. Acrescentou viagens e mais viagens. Viajaria o quanto pudesse e com mínimo possível. Viajou até dormir. João estava apressado.

No outro dia, o vizinho de cima o acordou com sua voz alta e rouca matinal. Fazia meses que João queria mudar de apartamento, mas para isso precisava de um aumento. No dia anterior soube de alguns rumores sobre uma possível promoção. Decidiu chegar mais cedo e mostrar serviço. João estava avessado.

Foi numa noite como essas que notou que as coisas que ele planejava antes de dormir pareciam impraticáveis pela manhã. Mas nessa noite em especial, ele não dormiu. João saiu da cama sonolento e lavou o rosto na água gelada. Pegou sua mochila velha, enfiou nela algumas mudas de roupas e foi para o aeroporto pegar o primeiro voo que partisse. João estava realizado.

Conheci João numa clínica que frequento. João e eu tentamos curar nossa insônia.

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Estação Consolação

#Juliana

Juliana não procurava necessariamente um namoro, mas queria encontrar um cara legal. Nos finais de semana, um de seus maiores prazeres era ir à praia sentir a brisa no rosto e analisar as pessoas. Gostava de reparar nos cabelos, pele e expressões, e tentar imaginar o tipo de vida que elas tinham. Começava tentando desvendar a profissão e evoluía para os relacionamentos e a personalidade. Sentia falta de alguém para compartilhar suas certezas.

Apaixonada por cinema, Juliana costumava assistir comédias românticas e achava os filmes intelectuais muito chatos. Parecia um paradoxo, já que adorava reparar em comportamentos, mas seu interesse em ver filmes era aquietar os pensamentos. Questionamentos despertam a mente e nos fazem acordar dos sonhos, e Juliana queria apenas entrar na fantasia e ter alguém para dividir a pipoca e fazer carinho nas mãos. Suas unhas eram um pouco compridas e gostava de passá-las levemente na pele e ver os pelos eriçarem. Juliana precisava de um antebraço sincero para arrepiar durante os filmes.

#Guilherme

Guilherme era considerado um cara legal por quase todos. Tranquilo, costumava sorrir ao responder às pessoas e isso causava nelas uma empatia instantânea. Era um pouco confuso por dentro, mas aprendera instintivamente que lábios entreabertos e levemente arqueados são resposta suficiente para a maioria das perguntas. Afinal, as pessoas não questionam verdadeiramente as coisas, apenas pedem, através de indagações, confirmações. E é exatamente isso que viam refletido no sorriso dele.

Ler era o principal passatempo de Guilherme. Adorava cadenciar as informações e adaptá-las à velocidade do seu raciocínio, de tal forma que não perdesse nenhum detalhe sobre os personagens. Não conseguia, aliás, se ater à história, era genuinamente apaixonado pelos personagens. Achava solitário ter tantas impressões sobre a personalidade deles e não ter alguém que pudesse ao menos sorrir quando ele as comentasse. Queria alguém que olhasse em seus olhos fingindo interesse em suas observações irrelevantes. Guilherme precisava de unhas que arrepiassem sua nuca durante suas opiniões.

#Juliana e #Guilherme

Juliana descia a escada rolante da estação Consolação do metrô com seu smartphone em mãos. Ficara presa em uma posição incômoda, pois uma senhora se postou à direita e ela teve de ficar à esquerda, com o corpo levemente virado para a escada rolante que subia. Guilherme, por sua vez, estava distraído com seu telefone quando colocou os pés na escada rolante que subia em direção à saída da estação. Por isso, mal percebera que estava no lado esquerdo (o lado da saída), com o corpo voltado para a escada rolante que descia.

No momento exato em que Juliana, concentrada em seu smartphone, postou uma mensagem em uma rede social, Guilherme e ela se cruzaram na escada rolante em sentido contrário. Ele, por sua vez, acabara de notar a nova mensagem surgindo em sua linha do tempo, postada por uma desconhecida que ele simpatizava muito. “Às vezes, o que procuramos está mais próximo do que imaginamos”, dizia. Guilherme curtiu.

Chegando no final da escada, próximo à saída da estação, Guilherme parou ao lado e pensou em mandar uma mensagem a Laura, com quem havia saído semanas antes. Não tinham muito em comum, mas sentia que era o que tinha disponível para o dia. Antes de enviar, lembrou-se da postagem da desconhecida e olhou a sua volta, mas não encontrou ninguém interessante. Riu do seu ato. Só então enviou a mensagem convidando Laura para sair e decidiu mandar também uma resposta à autora da postagem: “Já imaginou se o que procuramos fosse como os clichês, que estão em toda parte?”.

Juliana ia cruzar a catraca do metrô quando parou ao lado para ler a nova mensagem que acabara de receber. Era Pablo, um rapaz lindo e vazio que insistia em sair de novo para transar com ela. Não estava muito afim, mas aceitou, pois sentia que era o que tinha disponível para o dia. Instantaneamente, se lembrou do que acabara de postar e decidiu reler, na esperança inconsciente de acreditar nas suas próprias palavras.

Ao abrir a postagem, Juliana encontrou a resposta de Guilherme. Riu da analogia e curtiu. “Seria bom mesmo”, respondeu. “Clichês são parte do nosso idiota cotidiano”.

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Camila e a chuva

1998
Camila adorava dançar na chuva. Morava em Belém, onde a chuva é uma companheira constante, pontual e intensa. Camila arrumava-se para a chuva de todos os dias: Soltava o cabelo, trocava de vestido, optando por um modelo de tecido mais leve e que não ficasse transparente depois de molhado; colocava o pequeno aparelho de som que tinha próximo à janela traseira de casa, com uma fita de músicas que ia gravando das rádios que gostava de ouvir. Era um ritual que começava perto das três da tarde.
Quando a chuva começava ela descalçava as sandálias, apertava o botão play do aparelho de som e corria para dançar no terreiro atrás de casa, na companhia de um cachorro que a família acolhera, embora não mantivesse preso.
Camila era feliz desse jeito, e essa felicidade transbordava Camila e atingia quem estivesse por perto.
Após a chuva, ia, descalça e molhada, comprar peixe no mercado Ver-o-peso. Todos no mercado a conheciam e a chamavam de “Camila Encharcada”.

2012
Camila vive a plenitude de seus 20 anos. Mudou-se para Brasília, após ganhar uma bolsa de estudos na faculdade de Relações Internacionais. Quando era criança, tinha o sonho de dançar sob todas as chuvas do mundo: A garoa paulistana, a chuva das monções na Índia, a chuva fininha que cai em Londres vez por outra, até voltar à chuva do Pará, a sua chuva, a chuva que agora fazia tanta falta…

2062
Camila decidiu finalmente aposentar-se, após uma vida árdua e sem paixões. Conseguiu tornar-se uma diplomata, mas dançar na chuva transformou-se em vontade de dançar na chuva, que virou sonho de voltar a dançar na chuva, que virou nada. Virou uma mulher amarga, que fazia o que tinha que ser feito, na hora em que tinha que ser feito. Decidiu voltar pra Belém, não aguentava mais ver aqueles rostos petrificados que teve que suportar todos estes anos.
Chegou em Belém às treze horas. Chegou em casa uma hora depois.
Às três da tarde a chuva começou e Camila sentiu um arrepio e uma vontade incontrolável de se molhar. Colocou um vestido de florzinhas e foi pra chuva, dançar ao som do rádio que teimava em existir.

Dois dias depois, foi internada por causa de uma pneumonia. Todos os anos de secura foram demais para a encharcada Camila.

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Nunca muda

Você acorda cansado. Exausto na verdade. Você acorda e se cansa de ter que acordar. Você se levanta cansado. Você se cansa da cama bagunçada e de ter que arrumá-la pra depois bagunçá-la novamente. Você se cansa do rosto no espelho, da barba mal feita, da sobrancelha mal desenhada. Você se cansa do noticiário, se cansa das noticias, das guerras, das mortes, dos assaltos, dos ganhadores da mega-sena. Você se cansa de não ser um deles. Você se cansa do trânsito, dos prédios, da fumaça, dos atletas amadores que correm com os cachorros. Você se cansa das portas, dos bom-dias, dos sorrisos falsos. Se cansa dos apertos de mão, dos “quer um cafezinho, água, ou refresco?”, dos papeis. Você se cansa das mulheres que reparam de mais. Dos homens que não dão sossego. Você se cansa da comida que demora e queima a boca, do refrigerante sem gelo. Você se cansa do cigarro entre os dedos, se cansa de retocar o batom. Você se cansa de ter que ir e vir, voltar pra casa para voltar ao trabalho e depois para casa. Você se cansa das despedidas, do elevador quebrado. Você se cansa das luzes no vizinho da frente, das crianças no andar de cima. Você se cansa do café frio, da comida requentada. Se cansa da novela, das pessoas fúteis, dos comerciais. Se cansa do alaranjado da escova de dentes. Você se cansa do livro. Se cansa da rotina, se cansa do dia. Você dorme cansado. E ai você acorda cansado. Exausto na verdade. Mas você continua vivendo assim, cansado, até que um dia a vida se canse de você.

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Arquivado em @giovanamorim