Anjo

Aos 38 anos, João já havia deixado de acreditar em quase todas as coisas que fizeram parte de seu imaginário desde que nasceu. Havia desistido do esoterismo, da religião, da política, dos amores e aspirações de carreira, e vivia a vida arrastada e cinza que a maioria das pessoas escolheu pra ser sua. Durante o dia gerava relatórios, analisava números, tirava fotocópias. Vivia com medo de ser substituído por um robô, sendo que ele mesmo já havia se transformado num autômato há pelo menos 20 anos. Temia ser vítima de uma atualização de sistema. Temia colegas de trabalho mais jovens e seu espírito de mudança, temia colegas de trabalho mais velhos por sua experiência e liderança.

Um dia viu uma luz no corredor da empresa onde perdia sua vida; uma luz branca, muito mais forte que as fluorescentes, que inundou o corredor com um facho tão forte que quase podia ser tocado. Já passava das sete da noite e todos haviam ido para suas casas, menos João. Não que João gostasse de trabalhar ou precisasse estar ali, só havia perdido a vontade de voltar – algo relativamente comum durante a semana.

Da luz branca saiu algo que João julgou ser uma mulher. Jovem, negra, olhos cor-de-mel, linda. João havia sido paralisado pela luz, e agora estava deitado aos pés do anjo. A mente de João não conseguia processar tanta informação assim, e isso fazia com que ele fechasse os olhos com força, no intuito de fazer com que aquela assombração fosse embora, como os bebês costumam fazer.

O anjo olhou fixamente para João e tocou sua fronte com a palma da mão direita. João sentiu paz. O anjo sorriu e disse, com a voz de um trovão misturado com a brisa que vem do mar:

Estamos desapontados com você, João. Seja quem você quiser. Eu te espero do outro lado.

João acordou três dias depois, em um leito de um quarto comunitário do hospital regional. Quando recebeu alta, foi até a empresa, disse tudo o que sentia para seu chefe – claro que acabou sendo demitido por isso, ninguém pode dizer o que sente para o chefe – e foi embora. Vendeu tudo o que tinha, usou o dinheiro para comprar uma passagem para o litoral, doou o resto. Hoje, aos 45, João tem duas filhas, trabalha ensinando crianças a nadar e é um dos homens mais respeitados da pequena vila de pescadores onde foi morar (alguns até dizem que ele tem o perfil para ser o representante da vila na câmara de vereadores da cidade).

Algumas vezes, quando ocorre um evento traumático como um ataque cardíaco provocado por stress por trabalhar 10 horas por dia com o medo constante de ser demitido e ter que mudar de vida, ocorre um fenômeno no tronco cerebral em que o paciente pode experimentar todos os tipos de alucinação, desde túneis de luz até sensações tácteis e anjos que falam. Os pacientes que sobrevivem raramente conseguem discernir a realidade da ilusão provocada pela experiência de quase morte, mesmo após tratamentos psicológicos e psiquiátricos.

João leu sobre isso uma vez. Aliás, foi nessa pequena biblioteca que conheceu sua mulher Dora, aquela linda mulher negra com olhos cor-de-mel.

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20 Comentários

Arquivado em @perereco

20 Respostas para “Anjo

  1. Lucas Sousa

    Gostei do seu texto de estréia. Seja bem-vindo.

  2. Amanda

    Achei muito bacana, bem diferente dos outros textos aqui do idiotidiano curti.

  3. @regin_castro

    Gostei Thiago… Abraço

  4. Anônimo

    O texto ficou ótimo, parabéns! Espero que continue escrevendo lindamente e contagiando a todos nós “cinzas” que o leem =).
    Abraços.

  5. Texto muito bom cara, parabéns !

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