Arquivo do mês: fevereiro 2013

Safári urbano

Fim de expediente. Demorou-se ainda alguns minutos antes de pegar suas coisas e ir embora. A competição no trabalho estava feroz. Seu chefe andava numa caçada por incompetentes desde que recebeu ordens de fazer corte de pessoal. Para quem tem pouco, como ele, a demissão é a morte. E ali os fracos não tinham vez.

Agora precisava correr se quisesse sentar durante a viagem de mais de uma hora entre o trabalho e a sua casa, no fim da linha. Precisava ser mais rápido do que os outros. No horário de pico, são todos selvagens. Precisava usar toda sua agilidade animal para conseguir um assento onde pudesse cochilar entre as batidas da sua cabeça escorada no vidro da janela.

Mais uma vez conseguiu. Uma sensação de poder sentou junto com ele. Era o macho alfa. Lutaria até a morte com quem quer que ousasse tentar tirá-lo do trono de fibra e restos de pipoca doce. “Só os fortes sobrevivem”, pensou ao ver um velho se aproximar. Na natureza selvagem, nenhum líder do bando dá seu lugar aos inválidos. É a lei da vida.

Quando o sol se põe, os animais correm para o seu abrigo. Logo o cansaço das horas passadas em pé, repetindo movimentos na linha de montagem da firma, o fizeram pegar no sono e soltar a imaginação. Sonhou que estava na selva, num desses ônibus de turismo que gostava de ver na televisão. Estava num safári, ansioso para observar a vida acontecendo, a natureza em sua forma mais crua.

Quando a expedição se aproximou da savana, no entanto, viu que algo estava errado. Sua ansiedade deu lugar à confusão. Não havia qualquer movimentação ameaçadora, era até mesmo uma atmosfera preguiçosa a que pairava ali. Quando passou pelos primeiros grupos de animais, a confusão se tornou incredulidade.

Viu do lado direito do ônibus alguns animais lendo jornal enquanto tomavam um café e, do lado esquerdo, havia feras andando presas em jaulas motorizadas com a estrela da Mercedes-Benz. Aquilo era inaceitável! Ele havia pago uma fortuna para viver a emoção do perigo e ver em ação os instintos animais, não para ver uma gazela tricotando.

Começou a reclamar para os outros passageiros, que pouco se importavam com a sua indignação. Muitos deles nem mesmo olhavam para fora. Estava inconformado. Alguém precisava libertar aquelas feras do torpor em que se encontravam. Estava a um passo de dar um jeito naquilo, quando sentiu que alguém lhe segurava pelo ombro.

– O senhor precisa descer agora. – disse uma voz entediada.

Sentiu o rosto corar de fúria. Quem eles pensavam que eram para mandá-lo descer? Isso não ia ficar assim!

– Senhor, esse é o fim da linha. O senhor precisa descer! – a voz insistiu.

Subitamente ele tomou consciência do que se passava e, tão rápido quanto isso aconteceu, viu a chuva caindo lá fora e percebeu que esquecera o guarda-chuva. Não percebeu que, além do guarda-chuva, havia esquecido seu sonho. Desceu do ônibus e andou alguns quarteirões sob a chuva forte até chegar em casa.

Entrou e foi ao banheiro tirar a roupa molhada. Viu no espelho seu corpo animal metido num uniforme marrom idiota. Mais tarde se alimentaria e então acasalaria com aquela fêmea obesa que não podia abandonar. Para respeitar seu instinto de andar em bando, era necessário renegar muitos outros.

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Adeus

E Clerói morre.

– Onde estou?
– Ora, mas vejam só quem está aqui!
– Deus? É o Senhor?
– Por favor, sem formalidades. Pode me chamar de “senhor”, sem maiúscula.
– Onde estou? Eu morri?

Deus sorri.

– Muito bem, vejo que é mais esperto do que eu imaginava.
– Mas isso não é possível! Eu estava salvando pessoas que se afogavam no mar por conta de um navio que afundou e…

Deus interrompe, rindo.

– Talvez você não seja tão esperto assim. Meu filho, eu sei tudo.
– Como o Senhor pode rir disso? É um gozador, por acaso?
– Me chame de “senhor”, por favor.
– Se soubesse tudo, não ficaria surpreso em me ver, nem me julgaria mais esperto do que pensava.

Deus ri um pouco mais alto.

– Mudei de ideia novamente: realmente é mais esperto do que imaginei! Mas isso é só uma brincadeira, meu filho. Sei exatamente quão esperto você é e sei que você ia achar que não sei.
– Qual a graça de uma brincadeira que você já sabe o resultado?
– Bem… Pense da seguinte forma: você coloca uma casca de banana no caminho de alguém e se esconde para ver. O que espera? Que a pessoa escorregue e caia. Alguém passa, escorrega e cai. Acontece exatamente o que vocês esperava! O que você faz? Você ri. Você não consegue parar de rir. Estou certo?
– Sim…
– Então você entende porque é engraçado. A única diferença é que eu sei que vocês vão escorregar. Ainda assim, é engraçado. É como ouvir a mesma piada duas vezes. Você me entende, passou a vida fazendo as mesmas piadas com pequenas adaptações e rindo.
– Senhor, perdoe-me por dizer, mas não quero filosofar. Quero saber porque morri e o que existe depois da vida.

Deus sorri.

– Clerói, você está no purgatório. Estamos conversando para que eu decida se você vai ou não para o céu.
– Purgatório? Espera aí: o senhor viu o que eu estava fazendo?
– Tudo.
– E ainda assim tem que decidir?
– Clerói, eu sou Deus… Lembra? Sei tudo, até mesmo o que vou decidir.
– Então você já decidiu!

Deus ri.

– Estou voltando a te achar esperto…
– Então me diga, meu Deus do céu!

Deus gargalha.

– Rapaz, você passou a vida dizendo que Deus sabe o que faz e que vocês humanos não podem compreender plenamente meus desígnios e agora vai me dizer o que fazer?

Clério pensa por alguns instantes.

– Perdoe-me, Senhor.
– É “senhor”.
– Senhor.

Deus acha graça e sorri, balançando a cabeça negativamente.

– Clerói, você passou 33% da sua vida dormindo, 33% tomando cafezinho no trabalho enquanto criticava os erros de quem se dedicava às coisas e 33% sonhando com uma vida diferente, para a qual jamais se dedicou. Estou errado?
– Sinceramente, está sim! Senhor, não posso concordar com isso de maneira nenhuma!

Deus ri.

– Estou sempre certo! Eu sei tudo, Clerói. Poupe seu fôlego, está tentando se convencer de algo que seu inconsciente e eu já sabemos que não é verdade.

Clerói pensa novamente.

– Perdoe-me, senhor.
– Poupe-me também dos falsos pedidos de perdão. Vocês humanos acham mesmo que podem errar e pedir perdão? Se enganem o quanto quiserem, mas é impossível me enganar: sei exatamente quem verdadeiramente se arrependeu e quem não.
– Tem razão, Senhor.
– Me chame de “senhor”.
– Senhor.

Deus ri.

– Clerói, 33% mais 33% mais 33% é igual a 99%. O 1% restante da sua vida é seu último ato, do qual se arrepende amargamente: sua tentativa de salvar vidas de um naufrágio marítimo.

Clerói fica indignado.

– Não me arrependo! Aliás, se eu pudesse voltar no tempo, faria tudo de novo! Não mudaria uma respiração! Nada!

Deus gargalha.

– Clerói, se te mandasse de volta com você sabendo que morreria se ajudasse as pessoas, você fugiria dali como um ratinho. Um peixinho, melhor dizendo.
– O Senhor quer apostar?

Deus começa a rir, até quase ficar sem ar.

– Apostar com Deus… Essa foi ótima! Vocês, humanos…

Clerói mantém seu semblante sério, como quem avisa visualmente que não está gostando das brincadeiras.

– Nunca me canso de ouvir essa, Clerói! É sempre engraçada. Mas chega de papo furado e vamos ao que interessa. Não quero que esse seu mau humor se converta em estresse. Isso mata, sabia?

Deus ri sozinho.

– Diga-me, Clerói: quem inventou esse nome ridículo para você?

Deus volta a rir tanto que quase não consegue terminar a pergunta. Clerói não entende o porquê.

– O Senhor não sabe tudo? Então sabe essa também!
– É “senhor”, Clerói. “Clerói”… – mais risadas – com minúscula.
– Ok, Senhor.
– Conte-me, Clerói: que diabos – desculpe a expressão – você pensou quando pulou no mar para salvar aquelas pessoas?
– Não pensei, Senhor. Apenas agi por instinto. Quando vi, já estava nadando e fazendo o possível para salvar aquelas vidas. Ninguém merece morrer daquela forma.
– Bom, acho que eu mesmo posso decidir como cada um merece morrer… De qualquer forma, tenho uma dúvida: você quer que eu acredite que tentou salvar vidas que nem conhece, arriscando a sua, por instinto?
– É o que aconteceu.

Deus sorri serenamente.

– Clerói, o instinto que dei para vocês é o de sobrevivência. Adicionalmente, para que pudessem melhorar a vida uns dos outros, dei sementes de compaixão e benevolência, para que cada um optasse por plantá-las ou não. E, para tornar a vida de vocês mais leve e divertida, criei o prazer e o humor.
– Usei minha compaixão para salvar a vida daquelas pessoas.

Deus sorri novamente, até o sorriso lentamente se desfazer.

– Clerói, você se esqueceu de como pagou por esse cruzeiro? Vou lembrá-lo: faz três meses que foi promovido, pois almoça todos os dias com seu chefe para que ficassem amigos. No caminho para o almoço, ignoram diariamente uma senhora que cuida de três crianças (seus netos), enquanto a mãe pede dinheiro no farol. Na volta para casa, depois de sobrecarregar os colegas de trabalho por não fazer nada, você reclama que a empregada nunca limpa as coisas direito. Então dorme e, pela manhã, dá um simpático “bom dia” para o porteiro, que não recebe mais caixinha de Natal, pois você votou na reunião de condomínio para que ela fosse proibida (“eles já têm décimo terceiro”).

Clerói tenta conter sua expressão de perplexidade.

– O Senhor não acha que está exagerando?
– Me chame de “senhor”. Clerói, esse é o resumo da sua vida. Em termos bem genéricos, porque esses assuntos são meio chatinhos. Gosto mesmo é de falar sobre coisas divertidas ou assistir vocês fazendo patetices. Prazer e humor são duas bençãos que vocês pouco aproveitam, preferem privação e tristeza.
– Senhor, não vou discordar do que disse, apenas acrescentar que, ao menos no final da minha vida, provei que me importo com as pessoas. Talvez tenha sido em apenas 1% dela, mas certamente provei.
– Olha Clerói… Na verdade, no final da sua vida, você comprovou sua ambição, arriscando-a por um pouco de fama e um carimbo de herói. Mas… Ops, não deu certo!

Clerói fica irritado e faz o possível para se controlar.

– Olha, o Senhor me desculpe, mas pouco importa para mim se é Deus ou não. Sou um herói e sei que sou! Tenho certeza que é exatamente isso que as pessoas que salvei, além de seus familiares e amigos, acham. Penso nos outros e os ajudo por um motivo muito simples: sou humano!
– É “senhor”, Clerói. Acalme-se, não se preocupe… Não espero que entenda o que digo. Afinal, você é humano.

Berros desesperados e muitas pessoas gritando interrompem a conversa e o sono de Clerói: o navio está afundando. Ele sente uma descarga de adrenalina em seu corpo e corre para o deck, de onde avista um longínquo pedaço de terra. Clerói nem pestaneja: mergulha em direção àquela ilha e nada como um peixinho. Minutos depois, chega em terra firme, são e salvo.

Graças a Deus.

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