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Sobre escuerzo

Sic transit gloria.

Esperando no bar

Estávamos voltando para casa quando ela resolveu passar no mercado. Algumas compras eram necessárias e até mesmo urgentes, insistia. Eu estava de mau humor e disse que esperaria no bar da frente. Em pé ao balcão beberia cerveja gelada, talvez comesse um pastel frio. Nosso amor já durava oito anos e era desesperador que ninguém decretasse seu fim. Ainda a avistei saindo com duas sacolas tentando se equilibrar como uma balança. Não me mexi para ajudar e esperaria que ela atravessasse a rua para tomar qualquer atitude. Estava cansado e a cerveja gelada ainda por acabar. Ela atravessava a rua meio sem jeito quando a sacola rompeu. Antes mesmo de entender o que tinha rolado no chão, um carro a atropelou. Seu couro cabeludo voou como um escalpo depois da sua cabeça arrastar no chão. Só depois consegui ver as latas de Coca Zero sambando no asfalto até o meio-fio. Aquilo não era tão necessário que justificasse a ida ao mercado.

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Estamos contratando

A minha função nessa empresa é demitir. Não é só isso o que eu faço, mas é algo que sempre sobra para eu fazer. Dona Betina é uma senhora de, sei lá, oitocentos anos. Não aguentou o ritmo, o tranco, de uma cozinha comercial. Deve fazer muito bem suas tortas em casa e farofa com improvisos de banana e o que tiver na geladeira sobrando. Perdi meu tempo com essa cara aqui, chamo para uma reunião e ela traz a filha que é alguma coisa. Ela podia ser advogada, escrevente, astronauta, o que fosse, mas era de uma beleza clássica. Aquilo me desestabilizou. Ninguém poderia ousar uma covardia dessas, afinal era uma reunião de negócios e não um chá em família. Um homem no ramo empresarial deve saber tomar decisões de emergência, li num livro. Não me fiz de rogado e ofereci à jovem, linda, uma visita às nossas dependências. Aproveitando a cozinha já vazia, cravei-lhe por três vezes a faca de oito polegadas no pescoço. A quarta vez não pegou direito e machucou minha mão. Voltando, informei em tom seco e direto que aquela senhora estava demitida.

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O Pirata

O plantão começara numa noite de sexta de muita chuva. Movimento na delegacia com gente chegando e saindo. Muitos barulhos e em bom volume eram inevitáveis. Tudo aquilo configurava um quadro que José Carlos não desejava. Já se sentia velho para uma função que assumiu tarde demais na vida. Passou no concurso para delegado de polícia depois dos quarenta e cinco anos por insistência da mulher.

Chegou à sua mesa rogando praga contra o guarda-chuva esquecido em algum lugar. O cabelo ainda pingava sobre alguns papéis deixados por alguém. Gostaria de ser mais organizado às vezes. Dessa forma teria realizado mais e melhor os seus projetos de vida. Agora só conseguia pensar quando aquele plantão iria terminar.

Em busca de um café foi passando pelo corredor. Parou para falar com os colegas, outros cumprimentou com a cabeça. Andando ainda falou do Fluminense ou do ventilador quebrado. Torcia pelos dois: o time e o bom funcionamento do aparelho. Ambos faziam muita falta: por causa do excesso de volantes no meio-campo e dos incontáveis dias de calor.

Alguém o chamou pelo sobrenome. No fundo não gostava de ser chamado assim. Pensava estar chamando por seu pai, ou seu avô. Uma ilusão auditiva. Demorou a se acostumar com isso. O Évio tinha vindo da rua, chegou molhado também. Bom garoto, bastante profissional. Viu muito filme de tiro na juventude. Disse que precisava de auxílio com um senhor que trouxe da rua. Além do mais se não visse aquilo poderia ficar desacreditado. José Carlos foi atrás de forma mecânica, quase se arrastando.

Um senhor regulando com a sua idade. Podia ter netos até. Usava uma bandana na cabeça e um colete. Sentou-se à mesa com o velho do outro lado. Évio soprou ao seu ouvido se tratar de um pirata. Nunca se vira algo parecido naqueles anos de polícia. José Carlos achou que aquilo devia ser sacanagem. Fez menção de levantar-se quando foi demovido pelo jovem colega a sentar e ouvir o resto. Não acreditava que ele ia insistir em alguma piada e deu um crédito ao rapaz.

Se era pirata não usava tapa-olho e isso foi quase uma decepção. Évio despejou em cima da mesa o que apreendeu do senhor. Um gancho com uma base na qual que ele colocava a mão por dentro, segurando-o pelo ferro e um arcabuz. Achou linda aquela peça, cheia de adornos, muito bem conservada (se conseguisse, levaria para casa). José Carlos sentiu-se velho e obsoleto como aquela primitiva pistola.

Perguntou se ele cometera algum crime. Por que fora detido. Era crime ser pirata? Afinal, a Esquadra Espanhola não ia aparecer na Praça XV. O impacto da surpresa daquele bucaneiro na sua presença aniquilara essas dúvidas. Évio disse que aquele estava causando transtorno aos passantes. Algumas senhoras reuniram-se para chamar a polícia quando ele passou e desceu para ver do que se tratava.

O delegado não achou graça. Na verdade, estava fascinado. Os amigos da rua preferiam os cowboys. Brincadeiras de tiros com a boca, cavalos de cabo de vassoura e diligências de bicicletas. José Carlos preferia navegar em busca de tesouros de chocolate e galeões de sofá. Sempre desejou ser valente como um pirata. Outras crianças ainda gostariam de ser astronautas.

Por um minuto chegou a odiar todo mundo que não fosse pirata. Detestar aquele ambiente de trabalho que não suportava. Os pais que não o incentivaram. Preferiam que ele fosse contador. A mulher impondo a ele ser algo para ela ter outra casa, outro carro. Aquele senhor, sim, que ousara sonhar. Estava disposto a montar sua tripulação e singrar os mares quando foi impedido por velhas rancorosas que não sabem o que é uma bujarrona e o quanto vale uma onça espanhola.

José Carlos lembrou dos bailes de carnaval da sua juventude. Não de forma jocosa, mas de como gostava de se fantasiar (não abria mão do tapa-olho) e de viver a fantasia. Lembrou da banda que montou com os vizinhos e deu a sugestão do nome “Os Corsários”. Do sucesso que faziam na matinês e nos bailes, os mesmos da infância. Queria ser Lennon, queria ser McCartney, queria ser Harrison, queria ser Starr. A estrela apagou e ele tinha que ser alguém na vida. Ele era agora um fantasma dos carnavais passados.

Pediu ao Évio que retivesse o gancho e o arcabuz. Deveria fazer contato com algum familiar do idoso e encaminhá-lo aos assistentes sociais, se necessário. Era noite de sexta-feira, chovia muito, a delegacia estava cheia, não tinha ventilador e o plantão estava só começando. Não tinha conseguido ainda nem tomar um café.

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Nada de interessante

Deu um jeito para conseguir sair do trabalho mais cedo. Avisou que tinha médico marcado no meio da tarde. Só tinha conseguido aquele horário (era ruim, ele sabia) porque se tratava de um doutor muito concorrido na cidade. Um bom médico judeu de muito conceito. Depois dos trinta, já viu, é ladeira abaixo. Tem que se cuidar, fazer check-up de tempos em tempos e se reciclar com as novas normas ortográficas. Essas manobras não eram problema e ele dava um jeito de fazer isso sempre que podia, tomando cuidado para não banalizar o ato.

Chegou em casa, jogou as chaves na mesa e ligou logo a televisão. Era dia de final de campeonato europeu. Final de temporada era aquela correria e nada como uma consulta estratégica no bolso para sacar uma saída providencial do trabalho. Chegara exatamente no momento das escalações dos times e aproveitou para tirar os sapatos enquanto passava os olhos nos nomes dos jogadores. Fulano de tal não joga hoje, machucado, e um sapato voava pelo canto do apartamento.

Não que Henrique fosse grande fã de futebol, mas a oportunidade de burlar o trabalho numa tarde de quarta-feira era um poderoso afrodisíaco. Na época do colégio ele praticava esportes e chegou a jogar hóquei no gelo quando fez intercâmbio nos Estados Unidos. Estudou os últimos dois anos escolares em Saint Paul e foi eleito o melhor estrangeiro da liga estudantil de Minnesota. Por causa disso foi disputado por universidades que lhes ofereceram bolsas estudantis e todas as vantagens advindas do fato de ser estrela do esporte.

Estava bem encaminhado na vida se não fosse por um acidente de carro que lhe tirou um percentual de visão periférica e alguma articulação do cotovelo. Ficou desiludido e voltou para o Brasil. Foi ao centro da cidade em busca de algum emprego, entretanto não tinha treinamento, experiência ou habilidade específica. Por intermédio de um tio, ou parente próximo, conseguiu emprego no banco onde trabalha até hoje. Seu maior plano até então era se aposentar com saúde pela previdência social.

Dormiu antes do final do primeiro tempo e quando acordou já estava escuro. Acreditava que a desvantagem de morar sozinho era a de que em momentos como esse tudo parecia abandonado até que você mesmo se levantasse e fosse acendendo as luzes para dar vida à casa. O telejornal da noite deixava de iluminar seu pequeno mundo. Passava um chato que gritava. Desliga a televisão e abre a geladeira. Enquanto admirava seu conteúdo, coçava a barriga por baixo da camisa durante um longo bocejo. Nada de interessante.

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A vida vai tão rápido

Suas lembranças eram de sonhar o dia inteiro. Tudo passou como um raio e aquelas lembranças se tornam um borrão. Não pode deixar de se revoltar com o que lhe tiraram: carreira, sucesso e habilidade. Sua conduta era irrepreensivelmente medíocre fora dos rinques. Repetia chorando diante do espelho jamais ter sido tamanho pecador para merecer este castigo físico. Um acidente no qual ninguém se machucou, somente ele que ia no banco de trás dormindo. O carro derrapa no asfalto congelado e bate com a lateral contra um poderoso pinheiro. A lateral do Henrique. A cabeça cortada, fragmentos de vidro nos olhos e um cotovelo esmagado enquanto ninguém mais sofreu nada.

Ele foi um bom momento, pensou. A vida vai tão rápido que só fazemos o que achamos certo. Fechando os olhos e o que passou por sua cabeça foi a história da sua vida. Os bons momentos vão e vêm e tudo aquilo que queria era que durassem um pouco mais. Em sua mente apenas cabia a reflexão sobre os que teve e o por quê deles terem um fim.

Aquele momento com Bia era outro. Desejou ter esse momento para sempre. Como se o tempo parasse se e enquanto prendesse a respiração. Era hora de voltar para casa, o lugar ao qual pertence. Uma terra onde se é permitido sonhar. Com a menina em seus braços se permitiria repensar toda a sua vida longe dos pecados que não cometeu e das penas que cumpriu por isso. Bastava apenas abraçá-la e todas as portas se abririam. Aquela fria e cinza Saint Paul coberta de neve ficou para trás.

O inverno de uma vida se acaba por causa do olhar de ternura cheio de amor e desejo dela. Os dois seguiriam em frente para ver as flores se abrir na primavera. Fechou os olhos e isso passou. Primeiro uma idéia, depois um abraço. E depois a descoberta de que o amor é essencialmente simples.

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Champanhe nacional em copo de plástico

Ele sempre saía cedo pela manhã para ir trabalhar. Mochila do notebook, pasta embaixo do braço, camisa para dentro da calça. Antes de cumprir sua jornada diária, ela preparava-lhe o café da manhã e se despedia aos beijos na porta do apartamento esperando o elevador chegar. Trocavam acenos até a porta se fechar para o elevador descer. Ele ia embora, ela suspirava.

Merecido foi que ganhou um dia de folga no trabalho em troca das horas extras cumpridas até então. Acordou mais tarde do que o habitual e pegou a mesa do café já posta. Molhando o pão no café enquanto lia a página de esportes – começava o jornal sempre pelo caderno de esportes -, eis que surge sua mulher já vestida para sair. Deseja bom dia e é desejado. Beija e é beijado. Elogia sua mulher que é bem bonita.

Saía para fazer compras no shopping com a mãe. Enquanto ela esperava o elevador chegar ficou na porta para acenar quando a porta se fechasse. Disse que a amava e que aproveitasse o passeio. Ela mandou um beijo de volta. Houve um silêncio. Ela olhou o botão do elevador ainda aceso. Ele olhou para os pés. Levantou a cabeça e sorriu para a mulher. Ela sorriu de volta. O elevador chegou. A porta abriu. Ela ia embora, ele engoliu em seco.

Fechou a porta de casa assombrado pelo tempo que o elevador demorou a chegar. Percebeu naquele momento como era a vida dentro de seu próprio lar numa manhã de um dia de semana. Sons que não lhe eram familiares como o da construção do prédio ao lado. Cores intensas como a do sol da manhã que prometia o anúncio dos classificados. Cheiros como o da carne assando misturado com o refogado do arroz na cozinha do vizinho.

Era como se tivesse se despedido de uma mulher desconhecida e tivesse entrado na casa errada.

O desespero bateu forte. O coração disparou e as mãos suavam. Uma sensação desagradável lhe atingia naquele momento. Poderia descrever como o medo que vinha após um susto. Um medo de levar outro susto quando o corpo ainda estava crispado em pânico.

Os cabelos do pescoço ainda estavam eriçados quando se virou da porta para a sala que se encontrava mais escura. O janelão que dava para a rua não estava fechado, mas diminuído. Correu até a janela e só conseguiu colocar o rosto pelo buraco que ficara. Sentiu-se olhando pela escotilha de um navio. Tirou rapidamente a cabeça temendo que ficasse presa.

Olhou depressa ao redor para a sala. O sofá, a televisão, a estante de livros e enfeites. Tudo parecia normal. Pegou um porta-retrato com a foto de uma bonita mulher morena posando junto a um avião monomotor. Suando nervoso, acreditava ter ficado louco. Sua mulher não era morena nem nunca chegou perto de um avião. Largou a moldura no chão e seu vidro trincou. Numa outra foto, uma pose do time de hóquei do exército vermelho soviético. Jogou longe, bateu na parede. O vidro se fez em pedaços.

Pegou os livros e folheando o primeiro, percebeu que estava em branco. Nem na capa havia nada escrito. Assim como todos os outros nas prateleiras. Começava a arremessar livros pela sala quando passou a mão no seu chaveiro. Ia sair daquele jeito mesmo. Só de shorts do pijama. Precisava sair dali, precisava correr.

Tentando abrir a porta que o desespero bateu mais forte. Nenhuma das chaves encaixava na fechadura. Aquele era seu chaveiro da sorte desde a sétima série. Não podia falhar agora. Tentou gritar e não lhe saiu nenhum som. Nunca se sentiu tão sozinho. O teto do corredor da porta lhe espremia a cabeça. O cômodo estava diminuindo. Saiu engatinhando quando uma parede se fechou atrás de si.

Correu para o telefone da cozinha que apenas tocava uma canção de vaudeville. Nada de linha. Olhou para a mesa do café que deixara há instantes e viu que seu jornal estava todo azul. Na sua xícara brotara uma orquídea. E nos seus olhos várias lágrimas.

Dentro do quarto do casal percebeu que a porta que bateu com o vento não se abriu mais. Da janela não podia olhar porque seu vidro estava preto. Não conseguiu quebrá-lo nem arremessando o criado mudo. Virou a penteadeira (que sua vó chamava de toucador) no chão. Arrancou a persiana da parede e tirou o colchão da cama.

Arranhou a porta em total descontrole. No auge, chorando, não ouvia a própria voz. Ele chorou ajoelhado entre os destroços do quarto. Prometeu ser uma pessoa melhor.

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Nós sempre teremos Paris

Sempre quis te trazer aqui em casa. Imaginava nós dois sentados no sofá esparramados, sorrindo (felizes) e comendo pipoca. O filme poderia ser qualquer um, já nem me importava se Loucademia de Polícia ou Capitão Blood. Não conseguiria prestar atenção na tela enquanto seu sorriso permanecesse no rosto. Agora você estava aqui do meu lado sem ao menos saber o quanto sonhei com esse dia. Meus pais foram viajar, a casa vazia, a ocasião não poderia ser melhor. O mundo seria nosso essa noite, meu amor.

Tudo seria perfeito se eu não insistisse em querer ouvir sua voz. Para isso tirei a mordaça que cobria sua boca e você começou a gritar nervosa. Mesmo sem conseguir mexer as pernas e os braços, amarrados, seus olhos não paravam de verter lágrimas. Você então começou a gritar tão alto que sua linda voz desafinava rouca. Não tive outra opção que não desferir-lhe três socos. Não pense que isso não doeu em mim, meu amor, pois quase quebrei a mão. Ou você poderia ter facilitado as coisas para nós dois e ter se calado no primeiro soco. Do corte que se abriu em sua têmpora, consegui lamber o pequeno filete de sangue que apareceu.

Senta aqui, meu amor, vamos ver o filme aqui que vai começar. Adiantei os traillers e me inclinei para beijar sua boca. Eu estava hirto de prazer com a proximidade do seu hálito quando me distraí por um segundo o você mordeu meu nariz com toda a força que conseguiu. Quase perdi os sentidos, não conseguia me desvencilhar, nem te puxar pra trás. Te bati, me esperneei, só consegui passar o braço pela mesinha de centro da sala e pegar a primeira coisa que consegui. Não hesitei em te bater com a Torre Eiffel da minha mãe. Usando como um tacape, consegui com que você me soltasse o nariz que já sangrava tanto a ponto de beber meu próprio sangue. Virei a base da torre para trás e desferi cinco golpes com a ponta no seu pescoço. Sua traquéia estava parecendo um zigue-zague quando terminei, cansado, deixando o pesado enfeite de ferro cair ao chão. Seu rosto estava ficando roxo quando tive todo o cuidado de te deitar no sofá.

Ficamos de conchinha, cobri nossos pés e olhando para a tela me dei conta de que perdemos os créditos iniciais. Odeio ver filme começado, mas tendo você ali comigo eu poderia deixar essa passar.

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