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Politicagem

Eu prometo! Eu juro! Eu sei! Eu posso! Eu vou! Eu mesmo! Em mim! Por mim! Pra mim! Eu quero o que você quer e, se você quer, eu faço! Você precisa, eu dou! Você me escuta, eu falo! Você me apoia, eu pago! Você me aceita, eu ajo! Você me eleva, não caio! Você me vê, eu saio! Você me procura, eu não te acho! Nós colaboramos, eu falho! Você reclama, eu ralho! Você proclama, eu reajo! Você diz “escândalo”, eu abafo! Você mostra as cartas, eu embaralho! Você grita, eu embalo! Você protesta, eu ensaio! Você sofre, eu viajo! Você constrói, eu escangalho! Você trabalha, eu desmaio! Você diz povo, e eu, salário! É por você, só que ao contrário.

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Nunca muda

Você acorda cansado. Exausto na verdade. Você acorda e se cansa de ter que acordar. Você se levanta cansado. Você se cansa da cama bagunçada e de ter que arrumá-la pra depois bagunçá-la novamente. Você se cansa do rosto no espelho, da barba mal feita, da sobrancelha mal desenhada. Você se cansa do noticiário, se cansa das noticias, das guerras, das mortes, dos assaltos, dos ganhadores da mega-sena. Você se cansa de não ser um deles. Você se cansa do trânsito, dos prédios, da fumaça, dos atletas amadores que correm com os cachorros. Você se cansa das portas, dos bom-dias, dos sorrisos falsos. Se cansa dos apertos de mão, dos “quer um cafezinho, água, ou refresco?”, dos papeis. Você se cansa das mulheres que reparam de mais. Dos homens que não dão sossego. Você se cansa da comida que demora e queima a boca, do refrigerante sem gelo. Você se cansa do cigarro entre os dedos, se cansa de retocar o batom. Você se cansa de ter que ir e vir, voltar pra casa para voltar ao trabalho e depois para casa. Você se cansa das despedidas, do elevador quebrado. Você se cansa das luzes no vizinho da frente, das crianças no andar de cima. Você se cansa do café frio, da comida requentada. Se cansa da novela, das pessoas fúteis, dos comerciais. Se cansa do alaranjado da escova de dentes. Você se cansa do livro. Se cansa da rotina, se cansa do dia. Você dorme cansado. E ai você acorda cansado. Exausto na verdade. Mas você continua vivendo assim, cansado, até que um dia a vida se canse de você.

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Telefonema

– Alô?

– Alô, quem gostaria?

– Gostaria de quê, especificamente?

– Quem gostaria de falar, ué!

– E isso como eu vou saber? Acho que quem não aprendeu a falar que gostaria, você não?

– Deixe de brincadeiras e diga logo quem fala!

– Todo mundo fala, excluindo aqueles que não conseguem. O colega tem conhecimento do problema de mudez que…?

– Mas quem é que está falando?

– Milhões de pessoas veja só! Inclusive nós dois, ora bolas..

– Vamos com isso! Diga quem é aí do outro lado falando comigo!

– Ah, aqui sou eu.

– Quem seria “eu”?

– Como é que eu vou saber, se nem o rapaz sabe? Diga você quem é.

– Mas foi você quem ligou pra cá! Você é quem deve dizer!

– Eu não conheço você. Nem sei se é com você que devo falar.

– E com quem é que o senhor deve falar?

– Com Fulano.

– Não, aqui não tem Fulano algum!

– Então o amigo desculpa, que foi engano. Tchau.

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Relógio

Deu-se que precisava de um relógio. Um desses que a gente bota no braço, esquece de tirar e quando tira ganha uma marca de bronzeado no pulso, uma provocação no lugar errado. Queria o relógio. Mais do que isso: precisava dele. Era um desses homens que se esquecem da vida quando todos estão cansados de se lembrar. Ficava parado enquanto todos os coelhos da Alice corriam, gritando estarem atrasados com nenhum motivo aparente.

Sem perder tempo, foi buscar pelo relógio. Sabia onde encontrar, quem não sabe? Acontece que, além de distraído, era peculiar. Não queria um daqueles que todo mundo quer. Queria um espetacular, extraordinário, sensacional. Queria ver o tempo passar sem deixar que escapasse, percebendo seus movimentos e participando deles, como um ponteiro extra no corpo do aparelho.

Na busca pelo utensilio, perdia seus minutos observando aqueles que já possuíam um. Com um misto de inveja e vaidade, caminhava pelas ruas (era distraído a ponto de evitar as calçadas) a procura de seu próprio. Inveja pela ânsia de não ter conseguido um antes de todos aqueles idiotas que nem se davam ao trabalho de observar o belo movimento das horas. Vaidade por estar prestes a ter um melhor que o deles, novo, maior e mais interessante.

Chegou ao destino. Cansado e animado, não via a hora de poder vê-la. Escolheu, depois de um longo tempo, aquele que melhor lhe caía; melhor caía a ele e a ninguém mais. Caminhou para casa exibindo aquilo que os outros não se interessaram a ver. Vaidoso de ter agora o tempo que nunca teve, prendeu bem a pulseira ao pulso. Passou dois dias encarando o circulo perfeito feito por mecanismos impressionantes. Tinha agora horas de sobra pra saborear. Findo esse período foi se ocupar com qualquer outra coisa mais urgente e acabou tirando o relógio. Procrastinou pra voltar a colocá-lo e não colocou. Talvez outra hora.

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Ele

Ele te empurra da cama quase todos os dias e nem pensa em se desculpar. Ele te diz “você está atrasado pra caralho” sem ao menos medir as palavras. Ele te faz perder a paciência, se esconde quando você menos quer procurar. Ele te pede “vamos embora, vamos logo, vamos correr” quando você quer ficar parado. Ele te amola muito cedo, se justifica quando já é tarde. Ele te faz companhia.

Ele caminha com você, em você, por você. Ele te fala sobre o tempo, comenta sobre o calor, te protege da chuva. Ele te manda o bom dia, te faz responder, te obriga ao “obrigado”. Ele está sempre presente pra incomodar; quando se ausenta é puro incômodo. Ele te dá a notícia, te conta a fofoca, te põe a par. Ele é mensageiro, secretário, empregador, subordinado. Ele é o salário e a divida.

Ele te conecta. Te liga, te reanima, te ressuscita. Ele te corrige, te emudece e te faz falar. Ele toma seu tempo sem pedir, te devolve quando der. Ele nunca te devolve. Te apressa por nada, faz barulho por coisa alguma. Ele te leva pra casa. Ele fica ali, parado, te perguntando por que você não faz o favor de se mover. Ele te move.

Ele provoca, te apressa, te manda ir. Ele cruza a rua por você; a rua, o mar, o mundo. Ele te faz vibrar, te deixa silencioso. Ele cai, se joga, pula, quebra mas não te abandona. Ele é a sua cara. Ele é melhor que o do seu amigo, pior que o do seu chefe. Ele te faz um recluso em público, prende sua atenção. É egoísta.

Te dá música, texto, vídeo. Quer atenção, quer seu dinheiro, quer crédito. Te pede por tudo o que você nem sempre pode dar. Te transforma num número, uma equação. Ele te incomoda, te preocupa. Ele te distrai. Te faz esquecer da vida, faz a vida esquecer você. Ele te liga. Te faz desligar, ser desligado. Ele te toca, se toca, te faz tocar. Agora com licença, o meu está tocando.

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Assalto

Levantou devagar. Acordou de assalto (roubaram-lhe o sono), e agora levantava. Lentamente, um pé após o outro, um choque térmico por vez. Levantou. Como se andasse na calçada da fama, pisa com maestria; estava de pé. Começa a jornada.

O mapa já era desenhado no cérebro, ou por repetição do trajeto, ou por vontade exacerbada. O caminho era simples, direto, sem obstáculos aparentes. Aparentemente estava tudo nos conformes, conforme o planejado. Seguiu. Dois, três, quatro passos, não me lembro. A porta abriu. Não sozinha, é claro, foi preciso alguma habilidade. Desfeito o cativeiro, começa o assalto.

Com destreza alguma, percorre o caminho conhecido que leva até ela. A terra prometida, a ilha de Found, o paraíso de Deus nenhum. Tentar não fazer barulho, caso funcionasse, seria um bom plano. Mas não funciona, então faz-se música. E dança. Dum lado pro outro, enquanto toda a maravilha vai surgindo,  lentamente.

Chega. Está lá, em frente; enfrente! Abre com cuidado o portal, que se mostra disposto como se pedisse pra ser aberto. Procura o tesouro com impaciência. Suor. Encontra. Até que enfim. Sem preocupação com a vida, o mundo, a barriga, o médico, a balança, come. Não só com os olhos, desta vez com a boca mesmo. Assalto completo. A geladeira sofreu um arrastão com precedentes. Dane-se. Quem liga se o habeas corpus for justo demais e só passar, com muita luta, pela cabeça? Bom mesmo é ser indigente de casa. Bom mesmo é ser convidado ao crime. Bom mesmo é ser culpado e pegar uma pena de peso.

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Enfileirado

De repente você está parado. Muito consciente de onde, como e porque, mesmo quando tentar esquecer. Você está parado, perdendo seu tempo. Tempo é dinheiro. Aquele dinheiro que você  quase não tem e que está prestes a ser subtraído da sua conta equacional. Entrar na fila nunca é agradável. Se a cabeça se distrai e cala, os pés continuam reclamando. É sempre como estar numa crise de claustrofobia exacerbada: você quer sair, escapar, burlar as regras e fugir, seja o lugar apertado ou não.

Você continua parado. Parado num movimento interno constante, veja bem. O seu interior já implodiu em impaciência, seu exterior quer que se exploda. Se explodam todos os transeuntes, aqueles que voam continuamente, dia após dia, mas que resolveram parar  logo hoje, aqui, na sua frente. Uma vez na fila, você pode observar tudo, principalmente o relógio. Ele corre, queniano, transpondo todos os obstáculos, enquanto você continua ali, parado, num flashmob peculiar, ensaiando passos dum samba lento e preguiçoso: um pé a frente, depois o outro, de volta ao primeiro e todos os etcéteras.

Você continua parado. Mesmo quando a fila anda, caminhando para o seu fim que nunca parece chegar, você continua parado. E é parado que você percebe o quanto queria caminhar. É parado que se esquece a preguiça, o sono, o sedentarismo. Parado é que você quer movimento. O pare é sempre o estimulante para o próximo ”vá”. Mas ir é algo que não se pode fazer agora, embora a vontade esteja presente e tão perto de você quanto a nuca do sujeito em frente.

Você continua parado. E parar assim nunca te levou a lugar algum, se não o fim da linha. É lá que você quer estar, arfando incessantemente, sem conforto algum que possa ser dado. O desejo corrupto se apresenta. Aquele de passar por cima, cortar a fila e, mais do que isso, dividi-la em dois, retirá-la de lá e ficar só, em pé, devaneando sobre caminhar, sobre ser prontamente atendido, cobrado, subtraído, chamado, apresentado ao caixa. Mas você está parado. E, até que os outros se livrem da posição de estátua e passem a brincar da correria costumeira do todo-dia-a-dia, é assim que você vai ficar. Próximo!

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