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Ensaio sobre Comida Barata

Era bem novo quando ouvi, pela primeira vez, que baratas se alimentavam de muco nasal.
Não dei bola na época; mal sabia o que era muco.
Parecia mesmo o nome de comida de baratas.
Quando cresci e me disseram, pela primeira, vez que tinha muco escorrendo do meu nariz, fiquei desesperado.
Senti-me um náufrago sangrando em um mar infestado de tubarões.
Baratas são sinantrópicas poderosas e aterrorizantes, que partilham sua intimidade como se fossem convidadas.
Nunca, porém, as vi como inimigas.

Agora, sentia que minha terra fértil poderia ser invadida a qualquer momento por sua artilharia pesada.
Por terra, baratas atacam sorrateiramente, subindo suavemente por nossas pernas com patinhas infestadas de restos de lixo, esgoto e dejetos.
Pelo ar, avançam sobre o inimigo com rasantes imprevisíveis, alternados por voos kamikazes que mudam de direção no último instante, pegando as vítimas de surpresa.
Jamais estaria seguro novamente.

Minha primeira noite de guerra foi de vigília completa, com luzes acesas e sem dormir.
Momentos de fraqueza, onde meus involuntários cochilos foram demoradas trocas de turno que deixaram meu território vulnerável, marcaram a segunda noite.
Estrategicamente, usei óculos de sol como muralhas para encobrir a visão das inimigas.
Na terceira noite, porém, sabia que a batalha seria intensa.
Por conta da tropa exausta, preparei minas terrestres espalhando bolinhas de veneno pelo chão do quarto.
Em volta da cama, incontáveis bacias, pratos e potes cheios d’água formavam uma barreira quase intransponível.
Contra os ataques aéreos, me protegi usando camada dupla de cobertor que transformou a área do muco em um abafado, caloroso e claustrofóbico bunker.
Ao cair da noite, porém, a falta de ar me levou a abrir o bunker.

Percebendo minha exposição, uma inimiga sobrevoa o território para verificar se está seguro.
Pousa cuidadosamente sobre minha bochecha direita.
Uma pequena brecha na barreira d’água permite que outra progrida pelo sul da cama, subindo sorrateiramente pelo meu pé esquerdo.
As demais percebem o caminho livre e rapidamente ganham terreno pela minha perna.
Sem muito esforço, o território está conquistado.
A barata que está na minha bochecha, primeira a chegar, caminha pelo meu rosto até sentar sobre a minha boca.
Despreocupadamente, coloca sua cabeça dentro do meu nariz e começa a se deliciar com meu muco.
Suas antenas e patinhas pinicam minha sensível mucosa nasal.

As outras baratas chegam ao nariz e vão, uma a uma, ingressando para comer.
Na entrada, uma barata esguia e de antenas longas convida as demais a provar minhas inigualáveis iguarias, ajudando-as a encontrar um lugar disponível.
Dentro, pequenas e rechonchudas baratas detalham o menu do dia, com pratos que variam de caquinha seca (couvert) a ranho verde (sobremesa), passando por meleca (entrada) e catota (prato principal).

É uma noite de festa.

Sempre considerei os insetos insignificantes.
Para mim, não passavam de comida da minha comida.
Agora, sou comida barata.

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Adeus

E Clerói morre.

– Onde estou?
– Ora, mas vejam só quem está aqui!
– Deus? É o Senhor?
– Por favor, sem formalidades. Pode me chamar de “senhor”, sem maiúscula.
– Onde estou? Eu morri?

Deus sorri.

– Muito bem, vejo que é mais esperto do que eu imaginava.
– Mas isso não é possível! Eu estava salvando pessoas que se afogavam no mar por conta de um navio que afundou e…

Deus interrompe, rindo.

– Talvez você não seja tão esperto assim. Meu filho, eu sei tudo.
– Como o Senhor pode rir disso? É um gozador, por acaso?
– Me chame de “senhor”, por favor.
– Se soubesse tudo, não ficaria surpreso em me ver, nem me julgaria mais esperto do que pensava.

Deus ri um pouco mais alto.

– Mudei de ideia novamente: realmente é mais esperto do que imaginei! Mas isso é só uma brincadeira, meu filho. Sei exatamente quão esperto você é e sei que você ia achar que não sei.
– Qual a graça de uma brincadeira que você já sabe o resultado?
– Bem… Pense da seguinte forma: você coloca uma casca de banana no caminho de alguém e se esconde para ver. O que espera? Que a pessoa escorregue e caia. Alguém passa, escorrega e cai. Acontece exatamente o que vocês esperava! O que você faz? Você ri. Você não consegue parar de rir. Estou certo?
– Sim…
– Então você entende porque é engraçado. A única diferença é que eu sei que vocês vão escorregar. Ainda assim, é engraçado. É como ouvir a mesma piada duas vezes. Você me entende, passou a vida fazendo as mesmas piadas com pequenas adaptações e rindo.
– Senhor, perdoe-me por dizer, mas não quero filosofar. Quero saber porque morri e o que existe depois da vida.

Deus sorri.

– Clerói, você está no purgatório. Estamos conversando para que eu decida se você vai ou não para o céu.
– Purgatório? Espera aí: o senhor viu o que eu estava fazendo?
– Tudo.
– E ainda assim tem que decidir?
– Clerói, eu sou Deus… Lembra? Sei tudo, até mesmo o que vou decidir.
– Então você já decidiu!

Deus ri.

– Estou voltando a te achar esperto…
– Então me diga, meu Deus do céu!

Deus gargalha.

– Rapaz, você passou a vida dizendo que Deus sabe o que faz e que vocês humanos não podem compreender plenamente meus desígnios e agora vai me dizer o que fazer?

Clério pensa por alguns instantes.

– Perdoe-me, Senhor.
– É “senhor”.
– Senhor.

Deus acha graça e sorri, balançando a cabeça negativamente.

– Clerói, você passou 33% da sua vida dormindo, 33% tomando cafezinho no trabalho enquanto criticava os erros de quem se dedicava às coisas e 33% sonhando com uma vida diferente, para a qual jamais se dedicou. Estou errado?
– Sinceramente, está sim! Senhor, não posso concordar com isso de maneira nenhuma!

Deus ri.

– Estou sempre certo! Eu sei tudo, Clerói. Poupe seu fôlego, está tentando se convencer de algo que seu inconsciente e eu já sabemos que não é verdade.

Clerói pensa novamente.

– Perdoe-me, senhor.
– Poupe-me também dos falsos pedidos de perdão. Vocês humanos acham mesmo que podem errar e pedir perdão? Se enganem o quanto quiserem, mas é impossível me enganar: sei exatamente quem verdadeiramente se arrependeu e quem não.
– Tem razão, Senhor.
– Me chame de “senhor”.
– Senhor.

Deus ri.

– Clerói, 33% mais 33% mais 33% é igual a 99%. O 1% restante da sua vida é seu último ato, do qual se arrepende amargamente: sua tentativa de salvar vidas de um naufrágio marítimo.

Clerói fica indignado.

– Não me arrependo! Aliás, se eu pudesse voltar no tempo, faria tudo de novo! Não mudaria uma respiração! Nada!

Deus gargalha.

– Clerói, se te mandasse de volta com você sabendo que morreria se ajudasse as pessoas, você fugiria dali como um ratinho. Um peixinho, melhor dizendo.
– O Senhor quer apostar?

Deus começa a rir, até quase ficar sem ar.

– Apostar com Deus… Essa foi ótima! Vocês, humanos…

Clerói mantém seu semblante sério, como quem avisa visualmente que não está gostando das brincadeiras.

– Nunca me canso de ouvir essa, Clerói! É sempre engraçada. Mas chega de papo furado e vamos ao que interessa. Não quero que esse seu mau humor se converta em estresse. Isso mata, sabia?

Deus ri sozinho.

– Diga-me, Clerói: quem inventou esse nome ridículo para você?

Deus volta a rir tanto que quase não consegue terminar a pergunta. Clerói não entende o porquê.

– O Senhor não sabe tudo? Então sabe essa também!
– É “senhor”, Clerói. “Clerói”… – mais risadas – com minúscula.
– Ok, Senhor.
– Conte-me, Clerói: que diabos – desculpe a expressão – você pensou quando pulou no mar para salvar aquelas pessoas?
– Não pensei, Senhor. Apenas agi por instinto. Quando vi, já estava nadando e fazendo o possível para salvar aquelas vidas. Ninguém merece morrer daquela forma.
– Bom, acho que eu mesmo posso decidir como cada um merece morrer… De qualquer forma, tenho uma dúvida: você quer que eu acredite que tentou salvar vidas que nem conhece, arriscando a sua, por instinto?
– É o que aconteceu.

Deus sorri serenamente.

– Clerói, o instinto que dei para vocês é o de sobrevivência. Adicionalmente, para que pudessem melhorar a vida uns dos outros, dei sementes de compaixão e benevolência, para que cada um optasse por plantá-las ou não. E, para tornar a vida de vocês mais leve e divertida, criei o prazer e o humor.
– Usei minha compaixão para salvar a vida daquelas pessoas.

Deus sorri novamente, até o sorriso lentamente se desfazer.

– Clerói, você se esqueceu de como pagou por esse cruzeiro? Vou lembrá-lo: faz três meses que foi promovido, pois almoça todos os dias com seu chefe para que ficassem amigos. No caminho para o almoço, ignoram diariamente uma senhora que cuida de três crianças (seus netos), enquanto a mãe pede dinheiro no farol. Na volta para casa, depois de sobrecarregar os colegas de trabalho por não fazer nada, você reclama que a empregada nunca limpa as coisas direito. Então dorme e, pela manhã, dá um simpático “bom dia” para o porteiro, que não recebe mais caixinha de Natal, pois você votou na reunião de condomínio para que ela fosse proibida (“eles já têm décimo terceiro”).

Clerói tenta conter sua expressão de perplexidade.

– O Senhor não acha que está exagerando?
– Me chame de “senhor”. Clerói, esse é o resumo da sua vida. Em termos bem genéricos, porque esses assuntos são meio chatinhos. Gosto mesmo é de falar sobre coisas divertidas ou assistir vocês fazendo patetices. Prazer e humor são duas bençãos que vocês pouco aproveitam, preferem privação e tristeza.
– Senhor, não vou discordar do que disse, apenas acrescentar que, ao menos no final da minha vida, provei que me importo com as pessoas. Talvez tenha sido em apenas 1% dela, mas certamente provei.
– Olha Clerói… Na verdade, no final da sua vida, você comprovou sua ambição, arriscando-a por um pouco de fama e um carimbo de herói. Mas… Ops, não deu certo!

Clerói fica irritado e faz o possível para se controlar.

– Olha, o Senhor me desculpe, mas pouco importa para mim se é Deus ou não. Sou um herói e sei que sou! Tenho certeza que é exatamente isso que as pessoas que salvei, além de seus familiares e amigos, acham. Penso nos outros e os ajudo por um motivo muito simples: sou humano!
– É “senhor”, Clerói. Acalme-se, não se preocupe… Não espero que entenda o que digo. Afinal, você é humano.

Berros desesperados e muitas pessoas gritando interrompem a conversa e o sono de Clerói: o navio está afundando. Ele sente uma descarga de adrenalina em seu corpo e corre para o deck, de onde avista um longínquo pedaço de terra. Clerói nem pestaneja: mergulha em direção àquela ilha e nada como um peixinho. Minutos depois, chega em terra firme, são e salvo.

Graças a Deus.

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Nenhum de nós

Já era madrugada quando recebi uma mensagem de um grande amigo virtual. Um cara especial, que eu gostava e admirava cada dia mais. Não tinha introdução ou justificativa, apenas reflexões:

“Sou um escárnio. Não sou mais do que cólera travestida de razão, dourada por engodo. Sei quem sou, sei o que sou, sei como sou. Sou aversão, odiosidade, repulsa; meu nojo é enorme e imensurável. Odeio todos e preciso de todos, como um doente terminal que odeia sua comida asquerosa, mas depende dela. Quero escarrar na cara das pessoas, a mesma face que beijo e exalto, cubro de louvores, na esperança vil de que façam o mesmo. Sou ira, e todos são como eu; repugno-os, por assim serem, por me repugnarem, por odiarem, por me odiarem, por odiarem que eu odeie-os e, ainda assim, sorrirem, como num círculo, já que não têm início e são infinitos. Sou antipatia, raiva, rancor.

“Sou o mundo; tudo sou eu e eu sou tudo. Nada existe sem meu olhar e a vastidão é minha criação mental, que desaparece quando a esqueço. O menor dos atos é para mim; a existência é uma peça ensaiada para meu desfrute, meu deleite, que inexiste, pois é mal acabada, com enredo patético, risível, abominável. Chacinaria todos os atores, torturaria cada um deles, se não fossem eu mesmo, na verdade. Isso dói. Não a dor dos fracos, dos ignóbeis, dos imbecis. Esses, cretinos, uso com maestria. Mas a dor de um deus que rejeita sua criação, que execra seu trabalho, pois o mundo é meu e faço o que quero. Manipulo, julgo, engano. Meu prazer se esconde na minha existência; ele nunca vem, está sempre no próximo passo, na próxima vingança, no próximo inepto humilhado, no ignorante desdenhado, na coerção do servil e do obnóxio. Isso alivia minha dor.

“Mas jamais me conhecerás. Não porque não me conheças, mas porque já me conheces e não queres me conhecer. És privação desesperada, ausência infinita, imensurável carência; colossal e indisfarçável carência, abjeta, rasa, pueril. És a busca exasperada, incessante e descontrolada pelo equívoco tranquilizante, pelo conforto, por um instante de consolo. Porque és fraco, patético, humano. Desesperado e medíocre, confias em cada um dos meus enganos conscientemente, e esforças-te para te iludir e, assim, aliviar-te. Cada vocábulo meu é um conforto para tua angústia, tua infinda amargura, débil, angústia que sempre sentirás. Isso te machuca e, para isso, te dedicas. Assim, és cada dia mais frouxo, e, por ser, cada dia serás mais, pois sempre sucumbirás aos placebos que te tornam ainda mais anêmico.

“Foges de quem não te cobre de confetes, rejeitas os que te socorrem com os fatos. Tudo para te aquietar no aconchego da tua fragilidade, no amparo do teu ninho de falsidades. Do nosso ninho de falsidades. Essa é a nossa sina, cretino.”

Estranhei a mensagem. Ele não é assim. Talvez estivesse deprimido ou com algum problema pessoal, não sei. Pouco importa, pois ele não é assim. Não vale a pena perder tempo se preocupando com essas coisas. Preferi deletar.

Sei que ele não é assim.

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Mal passado

Pablo odiava bife bem passado. Gostava de carne bem vermelha, daquelas que você vê muito sangue escorrer já no primeiro corte.

*

Sexta-feira, no finalzinho do expediente, Pablo foi chamado à sala do chefe.

– Pablo, senta aqui um minutinho.

– Ok.

– Você sabe que perto do final do semestre nós fazemos algumas reestruturações na empresa…

– Sei.

– … e esse foi um semestre difícil. Infelizmente nossa diretoria ficou com resultado abaixo do esperado e vamos ter que fazer alguns cortes. Rotina. Você se lembra dos outros semestres.

– Lembro.

– Bom. Olha, além disso, também é importante dar oportunidades para outras pessoas. A empresa precisa se modernizar constantemente, oxigenar. Você entende.

– Claro.

– Ótimo. Organizei a lista de alterações e resolvi chamar os envolvidos individualmente. Dar um feedback para não pegar ninguém desprevenido e ser justo com todos. Resolvi começar por você.

– Sim.

– É o seguinte, Pablo: vou demitir o João e promover você para a vaga dele. Segunda-feira chamarei a equipe para fazer o anúncio a todos. Meus parabéns e obrigado por sua dedicação. Conto com você e confio no seu potencial!

Pablo tentou, mas não conseguiu dizer nada, apenas abraçou repentinamente o chefe e saiu da sala. Agitado, passou rápido por sua mesa, agarrou o paletó, desligou o computador e correu para casa para contar à esposa o que havia acontecido.

Chegando em casa, a esposa de Pablo o esperava com o jantar à mesa. Ela disse “oi” e deu um sorriso torto que quase não saiu. Pablo retribuiu o cumprimento e sentou-se. Ainda agitado, colocou arroz em seu prato, uma concha de feijão, um pouco de cebola e dois bifes. Lembrou-se automaticamente da infância onde comia arroz e feijão com ovo, pois não tinham dinheiro para comprar carne. Havia se dedicado muito para, hoje, poder comer dois.

Pablo espetou o bife com o garfo e começou a tentar cortá-lo com a faca. Não conseguiu. Estava duro e muito bem passado, dificílimo de ser cortado. Ele odiava bife bem passado. Em vão, aumentou a velocidade dos movimentos, mas isso só marcou a carne, que parecia impossível de ser penetrada.

“Vou buscar o suco na geladeira”, disse a esposa.

Pablo tirou a faca do bife. Segurando-a com a mão direita, colocou-a em seu pulso esquerdo e começou a serrar compulsivamente, como fizera com a carne. A faca penetrou seu braço como se fosse manteiga, jorrando sangue já no primeiro corte. Ele só parou quando ela chegou ao osso.

Seu prato ficou coberto de sangue, que manava pelo pulso e escorria por seu corpo.

– Amor, deixe o suco para lá. Corre aqui, tenho uma novidade que vai mudar nossas vidas.

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Estação Consolação

#Juliana

Juliana não procurava necessariamente um namoro, mas queria encontrar um cara legal. Nos finais de semana, um de seus maiores prazeres era ir à praia sentir a brisa no rosto e analisar as pessoas. Gostava de reparar nos cabelos, pele e expressões, e tentar imaginar o tipo de vida que elas tinham. Começava tentando desvendar a profissão e evoluía para os relacionamentos e a personalidade. Sentia falta de alguém para compartilhar suas certezas.

Apaixonada por cinema, Juliana costumava assistir comédias românticas e achava os filmes intelectuais muito chatos. Parecia um paradoxo, já que adorava reparar em comportamentos, mas seu interesse em ver filmes era aquietar os pensamentos. Questionamentos despertam a mente e nos fazem acordar dos sonhos, e Juliana queria apenas entrar na fantasia e ter alguém para dividir a pipoca e fazer carinho nas mãos. Suas unhas eram um pouco compridas e gostava de passá-las levemente na pele e ver os pelos eriçarem. Juliana precisava de um antebraço sincero para arrepiar durante os filmes.

#Guilherme

Guilherme era considerado um cara legal por quase todos. Tranquilo, costumava sorrir ao responder às pessoas e isso causava nelas uma empatia instantânea. Era um pouco confuso por dentro, mas aprendera instintivamente que lábios entreabertos e levemente arqueados são resposta suficiente para a maioria das perguntas. Afinal, as pessoas não questionam verdadeiramente as coisas, apenas pedem, através de indagações, confirmações. E é exatamente isso que viam refletido no sorriso dele.

Ler era o principal passatempo de Guilherme. Adorava cadenciar as informações e adaptá-las à velocidade do seu raciocínio, de tal forma que não perdesse nenhum detalhe sobre os personagens. Não conseguia, aliás, se ater à história, era genuinamente apaixonado pelos personagens. Achava solitário ter tantas impressões sobre a personalidade deles e não ter alguém que pudesse ao menos sorrir quando ele as comentasse. Queria alguém que olhasse em seus olhos fingindo interesse em suas observações irrelevantes. Guilherme precisava de unhas que arrepiassem sua nuca durante suas opiniões.

#Juliana e #Guilherme

Juliana descia a escada rolante da estação Consolação do metrô com seu smartphone em mãos. Ficara presa em uma posição incômoda, pois uma senhora se postou à direita e ela teve de ficar à esquerda, com o corpo levemente virado para a escada rolante que subia. Guilherme, por sua vez, estava distraído com seu telefone quando colocou os pés na escada rolante que subia em direção à saída da estação. Por isso, mal percebera que estava no lado esquerdo (o lado da saída), com o corpo voltado para a escada rolante que descia.

No momento exato em que Juliana, concentrada em seu smartphone, postou uma mensagem em uma rede social, Guilherme e ela se cruzaram na escada rolante em sentido contrário. Ele, por sua vez, acabara de notar a nova mensagem surgindo em sua linha do tempo, postada por uma desconhecida que ele simpatizava muito. “Às vezes, o que procuramos está mais próximo do que imaginamos”, dizia. Guilherme curtiu.

Chegando no final da escada, próximo à saída da estação, Guilherme parou ao lado e pensou em mandar uma mensagem a Laura, com quem havia saído semanas antes. Não tinham muito em comum, mas sentia que era o que tinha disponível para o dia. Antes de enviar, lembrou-se da postagem da desconhecida e olhou a sua volta, mas não encontrou ninguém interessante. Riu do seu ato. Só então enviou a mensagem convidando Laura para sair e decidiu mandar também uma resposta à autora da postagem: “Já imaginou se o que procuramos fosse como os clichês, que estão em toda parte?”.

Juliana ia cruzar a catraca do metrô quando parou ao lado para ler a nova mensagem que acabara de receber. Era Pablo, um rapaz lindo e vazio que insistia em sair de novo para transar com ela. Não estava muito afim, mas aceitou, pois sentia que era o que tinha disponível para o dia. Instantaneamente, se lembrou do que acabara de postar e decidiu reler, na esperança inconsciente de acreditar nas suas próprias palavras.

Ao abrir a postagem, Juliana encontrou a resposta de Guilherme. Riu da analogia e curtiu. “Seria bom mesmo”, respondeu. “Clichês são parte do nosso idiota cotidiano”.

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Cardápios

Domingo de sol, pássaros cantando e brisa amena. Um dia lindo e clichê, ainda que eu não me lembre exatamente de como são os dias clichês. Nunca reparei muito no tempo. Este é um dia especial.

Sentado em minha cama, de pijama, releio (ainda atônito) minha carta de aprovação no emprego em uma das mais criativas e conceituadas agências de publicidade. É um passo largo em direção ao meu sonho. Estou radiante; este é meu último dia de folga e decido torná-lo tão especial quanto minha vida será. Para começar, um desjejum na cafeteria que vende as melhores panquecas que já comi em toda minha vida. Inesquecíveis. Este é um grande dia!

As panquecas eram inesquecíveis, mas a localização da cafeteria não. Ando muito até achar o lugar; as ruas parecem diferentes e tenho que descansar algumas vezes antes de encontrá-lo. Nada vem sem esforço.

Entro e o garçom acena com a cabeça. “Mesa de sempre, Sr. Frederico?”. Mesa de sempre? Não me lembro de ter uma “mesa de sempre”… E como ele sabe meu nome? Ou melhor, o nome que deram para mim, o que é muito diferente. Fred é o meu nome, esse é o que escolhi para mim. Fred. “Sim, por favor” respondo educadamente. O garçom me conduz a uma mesa no canto, longe dos demais. Antes eu ficaria em dúvida se sou especial ou um excluído, mas hoje não. Eu sou especial.

“Deixe-me adivinhar: torradas com mel e água natural, Sr. Frederico?”. Torradas com mel? Que tipo de garçom oferece torradas com mel? Não, eu não quero nada disso. Duvido, inclusive, que alguém queira. “Panquecas com framboesa, por favor. E um cappuccino duplo sem canela”. O garçom balança positivamente a cabeça. Sinto pena dele.

Deve ser difícil ser garçom. Você trabalha o dia inteiro tentando agradar os outros para ganhar pouco e rezar por alguma gorjeta decente. Não que eu não esteja habituado a agradar chefes e clientes, mas é totalmente diferente. No meu novo emprego, por exemplo, terei perspectiva. Sim, eu poderei subir na carreira, ter novos desafios, criar. E outra: ainda que eu tenha sido contratado como autônomo e meu salário fixo seja baixo, ganharei 0,10% de comissão sobre todos os negócios que eu fechar. Só depende de mim.

A verdade é que as pessoas são muito acomodadas. Imagino todos os sonhos que esse garçom abandonou para servir mesas. Eu também posterguei alguns, claro, mas é diferente. Sempre sonhei em ser músico e em escrever um livro, mas no momento estou focado na minha carreira. Prioridades. Ainda sim, vou me dedicar ao livro nas horas vagas e, um dia, publicar. Um garçom não faria isso; aposto que ele usa suas horas vagas vendo TV. Eu também gasto algumas com a internet, mas a TV é passiva e a internet é interativa. É bem diferente.

Passam-se quinze minutos e nada das minhas panquecas. Chamo o garçom, pergunto se estão vindo e, para minha surpresa, ele diz que não. “Não?” – indago. “Não” – ele responde. “E por quê?” – pergunto. “Sr. Frederico, espero que saiba apreciar sinceridades: esqueci de pedir à cozinha. Mas vou providenciar prontamente, com licença”. Inacreditável, estou sendo servido por um garçom incapaz de memorizar um pedido com dois itens. Deve ser por isso que virou garçom ao invés de ter uma carreira de verdade. Mas não vou deixar isso estragar meu dia. As panquecas compensam.

Mais dez minutos se passam e o garçom volta à minha mesa com um prato nas mãos. “Aqui está, Sr. Frederico. Torradas com mel”. Torradas com mel!? Não acredito no que estou vendo! Este garçom indolente demora quase meia hora e serviu as malditas torradas com mel? “Estou farto desse atendimento!” disse em voz alta. “Não quero mais falar com você. Chame seu gerente imediatamente antes que eu arranje uma confusão de verdade”. É um absurdo!

O garçom olha para mim com sobrancelhas indiferentes e demora alguns segundos antes de se mexer, o que me deixa ainda mais irritado. Fico em dúvida se ele quer me provocar ou não, mas creio que não. Acho que ele só não se importa. Ninguém se importa.

O gerente chega à mesa.

– Pois não, Sr. Frederico.

– Primeiro eu gostaria de dizer que ninguém me chama de Frederico. Meu nome é Fred. Fred! Ok? Aliás, qual é o seu nome?

– Carlos.

– Ok, Carlos. É o seguinte: seu garçom ofereceu torradas com mel e eu disse que queria panquecas com framboesa. Quinze minutos depois, perguntei sobre minha comida e ele confessou que havia esquecido de pedir à cozinha. Fui compreensivo, mas dez minutos depois meu prato chegou e adivinhe o que ele trouxe? Torradas com mel!

– Nós só servimos torradas com mel, Sr. Frederico.

– O que? Como assim “só servem torradas com mel”? Seu cardápio tem 33 tipos de panqueca e você vem me dizer que só servem torradas com mel?!

– Sim, isso mesmo. Neste cardápio, nada é verdade.

– Isto só pode ser uma brincadeira. Não quero mais comer aqui. Cancele tudo, eu me recuso! Se vocês não servem panquecas, vou a um lugar que sirva!

– Panquecas não existem, Sr. Frederico. Coisas da vida.

Panquecas não existem… Estou tão irritado que não sei nem o que dizer! Cansei deste cara, é o gerente mais despreparado que já encontrei em toda minha vida. Levanto, ignoro-o e saio da cafeteria sem olhar para trás. Para mim, este lugar é passado, nunca mais voltarei. É uma questão de princípios.

Caminho para longe da cafeteria e, curiosamente, sinto uma sensação familiar… O vento aumenta sua intensidade e começo a lembrar de que eu realmente costumava comer torradas com mel… Não que isso tenha relevância, pouco importa. Aquela situação foi absurda, um verdadeiro ultraje. E este ainda é um dia especial. Mereço panquecas com framboesa.

O vento sopra forte e minha fome só faz aumentar.

Será que as torradas ainda estão à mesa?

Duvido.

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O carrinho de sorvete

Ainda que diferente dos meninos da sua idade, por conta da sua inteligência e maturidade, Pablo era um típico garoto de doze anos, cheio de sonhos e com uma vida inteira pela frente. Nascido em uma cidade do interior de Minas Gerais, aprendera com o pai que “quem acredita sempre alcança” e que não devemos nunca desistir dos nossos sonhos. E ele tinha muitos.

Eram quase onze da manhã quando Pablo sentou no meio fio em frente à sua casa, como fazia todos os dias. Com braços cruzados sobre os joelhos retraídos na direção ao peito, queixo repousado sobre o antebraço, pés agitados tamborilando sobre o asfalto e olhar perdido no horizonte, Pablo aguardava ansioso e pensativo a chegada do carrinho de sorvete, ponto alto do seu dia. Sua mente era um turbilhão de emoções e pensamentos que, com aquela pequena porção gelada de sabores de fruta açucarados, se acalmava e ficava em paz. Pablo era um sonhador.

Embora aprendesse muitas coisas com o pai, Pablo queria ter outra vida. Não que não o admirasse, mas seu pai tinha uma história por demais medíocre, casando-se com a namorada da escola (sua mãe) e trabalhando há vinte anos no mesmo emprego. Pablo queria mais. Queria se mudar dali e fazer carreira como ator de cinema. Dedicaria o que fosse necessário para isso; a certeza do sucesso o tornaria imbatível. “Eu acredito” – costumava repetir essa frase para si mesmo durante as mais diversas situações, uma espécie de mantra que lhe dava confiança para jamais desistir.

Imerso nos pensamentos onde imaginava os papéis que, um dia, interpretaria, Pablo quase não percebeu que já passava das onze. O carrinho de sorvete não costumava se atrasar, e a mente de Pablo precisava daquilo. Afinal, a carreira de um ator é recheada de pressões de todos os tipos, começando nas dificuldades para se conseguir boas oportunidades e terminando na ferocidade das críticas.

As mãos de Pablo começaram a suar. “Seriam os diretores tão frios e cruéis como nosso imaginário sugere?”, pensou. “Deve ser complicado, quase impossível, decorar tantas falas e ainda interagir com outros atores, demonstrando emoções através da voz, do corpo e das feições faciais. Além disso, existem as intrigas. E as fofocas, inúmeras fofocas! Não são raras as histórias de traições no meio, onde muitos faziam de tudo pelo estrelato. Festas regadas a sexo, drogas e álcool parecem divertidas, mas quem, se não os fisicamente avantajados, faria sucesso numa situação dessas? Fora o sotaque. Como disfarçarei o sotaque? Capiaus não costumam ser galãs!”

Pablo suava cada vez mais, e nem sinal do carrinho de sorvete. Já passava das onze e meia quando sua mãe o chamou para almoçar, mas ele se recusou a levantar. Disse a ela que não estava com fome, tentando parecer o mais tranquilo possível. Pablo jamais desistiria. Aquele era seu sonho, sua carreira, seu estrelado. Não seria covarde como seu pai, que trocou tudo por um pouco de arroz e feijão. Sonhos exigem dedicação, persistência. Pablo não se levantaria enquanto o carrinho de sorvete não chegasse.

Enquanto esperava sentado no meio-fio, uma tempestade se aproximou lentamente. Pablo viu o sol, até então radiante, ser calmamente engolido pelas nuvens, sem oferecer resistência. A escuridão tomou conta da rua e apanhou seu horizonte. Estava tenso; sua respiração ficou ofegante e repetia para si mesmo, ininterruptamente, em voz baixa: “eu acredito, eu acredito, eu acredito”.

Já passava do meio dia quando as primeiras gotas atingiram a cabeça de Pablo. Dezenas, centenas, milhares de gotas se juntaram às primeiras e ensoparam o garoto, que tremia encolhido no meio fio.

“Eu acredito”.

A tormenta sobre sua cabeça ficava cada vez mais forte, mas ele jamais desistiria. Pablo permaneceu ali, sentado no meio fio, esperando o carrinho de sorvete.

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