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A mocinha da ponte

Uma garota com seus 19, 20 anos atravessa a ponte.

Seus predicados físicos, muito modestos, não chamariam a atenção de ninguém à primeira vista: Olhos negros apontando para baixo, cabelos castanho-claros naturalmente ondulados, uma regata listrada sobre um tronco magrelo e sem jeito. Uma calça jeans de cintura baixa, com a barra arrastando no chão. Sandália de tiras brancas, apertando a parte de cima do pé em dois lugares.

Devia estar pensando na vida, pois vinha cabisbaixa; vinha a passos miúdos, como se os contasse.

O sinal abre, os carros passam. Numa Fiorino velha estão dois homens. O motorista posiciona o automóvel ao lado da nossa heroína, enquanto o colega põe a cabeça para fora da janela.

“Nossa Senhora, hein?”

O carro passa. Os carros passam. As outras pessoas passam. A moça sorri largo, de orelha a orelha, sem a mínima pretensão de disfarçar a felicidade que enchia-lhe as entranhas.

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Camila e a chuva

1998
Camila adorava dançar na chuva. Morava em Belém, onde a chuva é uma companheira constante, pontual e intensa. Camila arrumava-se para a chuva de todos os dias: Soltava o cabelo, trocava de vestido, optando por um modelo de tecido mais leve e que não ficasse transparente depois de molhado; colocava o pequeno aparelho de som que tinha próximo à janela traseira de casa, com uma fita de músicas que ia gravando das rádios que gostava de ouvir. Era um ritual que começava perto das três da tarde.
Quando a chuva começava ela descalçava as sandálias, apertava o botão play do aparelho de som e corria para dançar no terreiro atrás de casa, na companhia de um cachorro que a família acolhera, embora não mantivesse preso.
Camila era feliz desse jeito, e essa felicidade transbordava Camila e atingia quem estivesse por perto.
Após a chuva, ia, descalça e molhada, comprar peixe no mercado Ver-o-peso. Todos no mercado a conheciam e a chamavam de “Camila Encharcada”.

2012
Camila vive a plenitude de seus 20 anos. Mudou-se para Brasília, após ganhar uma bolsa de estudos na faculdade de Relações Internacionais. Quando era criança, tinha o sonho de dançar sob todas as chuvas do mundo: A garoa paulistana, a chuva das monções na Índia, a chuva fininha que cai em Londres vez por outra, até voltar à chuva do Pará, a sua chuva, a chuva que agora fazia tanta falta…

2062
Camila decidiu finalmente aposentar-se, após uma vida árdua e sem paixões. Conseguiu tornar-se uma diplomata, mas dançar na chuva transformou-se em vontade de dançar na chuva, que virou sonho de voltar a dançar na chuva, que virou nada. Virou uma mulher amarga, que fazia o que tinha que ser feito, na hora em que tinha que ser feito. Decidiu voltar pra Belém, não aguentava mais ver aqueles rostos petrificados que teve que suportar todos estes anos.
Chegou em Belém às treze horas. Chegou em casa uma hora depois.
Às três da tarde a chuva começou e Camila sentiu um arrepio e uma vontade incontrolável de se molhar. Colocou um vestido de florzinhas e foi pra chuva, dançar ao som do rádio que teimava em existir.

Dois dias depois, foi internada por causa de uma pneumonia. Todos os anos de secura foram demais para a encharcada Camila.

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Anjo

Aos 38 anos, João já havia deixado de acreditar em quase todas as coisas que fizeram parte de seu imaginário desde que nasceu. Havia desistido do esoterismo, da religião, da política, dos amores e aspirações de carreira, e vivia a vida arrastada e cinza que a maioria das pessoas escolheu pra ser sua. Durante o dia gerava relatórios, analisava números, tirava fotocópias. Vivia com medo de ser substituído por um robô, sendo que ele mesmo já havia se transformado num autômato há pelo menos 20 anos. Temia ser vítima de uma atualização de sistema. Temia colegas de trabalho mais jovens e seu espírito de mudança, temia colegas de trabalho mais velhos por sua experiência e liderança.

Um dia viu uma luz no corredor da empresa onde perdia sua vida; uma luz branca, muito mais forte que as fluorescentes, que inundou o corredor com um facho tão forte que quase podia ser tocado. Já passava das sete da noite e todos haviam ido para suas casas, menos João. Não que João gostasse de trabalhar ou precisasse estar ali, só havia perdido a vontade de voltar – algo relativamente comum durante a semana.

Da luz branca saiu algo que João julgou ser uma mulher. Jovem, negra, olhos cor-de-mel, linda. João havia sido paralisado pela luz, e agora estava deitado aos pés do anjo. A mente de João não conseguia processar tanta informação assim, e isso fazia com que ele fechasse os olhos com força, no intuito de fazer com que aquela assombração fosse embora, como os bebês costumam fazer.

O anjo olhou fixamente para João e tocou sua fronte com a palma da mão direita. João sentiu paz. O anjo sorriu e disse, com a voz de um trovão misturado com a brisa que vem do mar:

Estamos desapontados com você, João. Seja quem você quiser. Eu te espero do outro lado.

João acordou três dias depois, em um leito de um quarto comunitário do hospital regional. Quando recebeu alta, foi até a empresa, disse tudo o que sentia para seu chefe – claro que acabou sendo demitido por isso, ninguém pode dizer o que sente para o chefe – e foi embora. Vendeu tudo o que tinha, usou o dinheiro para comprar uma passagem para o litoral, doou o resto. Hoje, aos 45, João tem duas filhas, trabalha ensinando crianças a nadar e é um dos homens mais respeitados da pequena vila de pescadores onde foi morar (alguns até dizem que ele tem o perfil para ser o representante da vila na câmara de vereadores da cidade).

Algumas vezes, quando ocorre um evento traumático como um ataque cardíaco provocado por stress por trabalhar 10 horas por dia com o medo constante de ser demitido e ter que mudar de vida, ocorre um fenômeno no tronco cerebral em que o paciente pode experimentar todos os tipos de alucinação, desde túneis de luz até sensações tácteis e anjos que falam. Os pacientes que sobrevivem raramente conseguem discernir a realidade da ilusão provocada pela experiência de quase morte, mesmo após tratamentos psicológicos e psiquiátricos.

João leu sobre isso uma vez. Aliás, foi nessa pequena biblioteca que conheceu sua mulher Dora, aquela linda mulher negra com olhos cor-de-mel.

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