Politicagem

Eu prometo! Eu juro! Eu sei! Eu posso! Eu vou! Eu mesmo! Em mim! Por mim! Pra mim! Eu quero o que você quer e, se você quer, eu faço! Você precisa, eu dou! Você me escuta, eu falo! Você me apoia, eu pago! Você me aceita, eu ajo! Você me eleva, não caio! Você me vê, eu saio! Você me procura, eu não te acho! Nós colaboramos, eu falho! Você reclama, eu ralho! Você proclama, eu reajo! Você diz “escândalo”, eu abafo! Você mostra as cartas, eu embaralho! Você grita, eu embalo! Você protesta, eu ensaio! Você sofre, eu viajo! Você constrói, eu escangalho! Você trabalha, eu desmaio! Você diz povo, e eu, salário! É por você, só que ao contrário.

Anúncios

1 comentário

Arquivado em @giovanamorim

Não deixe para amanhã

Nos momentos introspectivos que precedem o sono, numa noite dessas comuns de meio de semana, João percebeu que seu trabalho não era o que queria. Decidiu que pediria demissão e arranjaria um trabalho fácil que lhe desse tempo para decidir o que realmente gostava. Fez mil planos até esgotar a mente e pegar no sono. João estava cansado.

Acordou em cima da hora na manhã seguinte. Precisava correr para chegar na hora no trabalho, no horário de almoço precisava pagar algumas contas do chefe e à noite tinha a pós-graduação. Enquanto escovava os dentes com pressa, encarou sério seu reflexo no espelho. Seus pensamentos libertários da noite anterior foram substituídos pela mania de repassar as obrigações diárias. João estava atrasado.

Pouco tempo depois, numa noite repetida de sono arisco, João lembrou do que havia planejado, um dia, antes de dormir. Retomou aqueles pensamentos como quem volta para um sonho. Acrescentou viagens e mais viagens. Viajaria o quanto pudesse e com mínimo possível. Viajou até dormir. João estava apressado.

No outro dia, o vizinho de cima o acordou com sua voz alta e rouca matinal. Fazia meses que João queria mudar de apartamento, mas para isso precisava de um aumento. No dia anterior soube de alguns rumores sobre uma possível promoção. Decidiu chegar mais cedo e mostrar serviço. João estava avessado.

Foi numa noite como essas que notou que as coisas que ele planejava antes de dormir pareciam impraticáveis pela manhã. Mas nessa noite em especial, ele não dormiu. João saiu da cama sonolento e lavou o rosto na água gelada. Pegou sua mochila velha, enfiou nela algumas mudas de roupas e foi para o aeroporto pegar o primeiro voo que partisse. João estava realizado.

Conheci João numa clínica que frequento. João e eu tentamos curar nossa insônia.

4 Comentários

Arquivado em @djex

Estação Consolação

#Juliana

Juliana não procurava necessariamente um namoro, mas queria encontrar um cara legal. Nos finais de semana, um de seus maiores prazeres era ir à praia sentir a brisa no rosto e analisar as pessoas. Gostava de reparar nos cabelos, pele e expressões, e tentar imaginar o tipo de vida que elas tinham. Começava tentando desvendar a profissão e evoluía para os relacionamentos e a personalidade. Sentia falta de alguém para compartilhar suas certezas.

Apaixonada por cinema, Juliana costumava assistir comédias românticas e achava os filmes intelectuais muito chatos. Parecia um paradoxo, já que adorava reparar em comportamentos, mas seu interesse em ver filmes era aquietar os pensamentos. Questionamentos despertam a mente e nos fazem acordar dos sonhos, e Juliana queria apenas entrar na fantasia e ter alguém para dividir a pipoca e fazer carinho nas mãos. Suas unhas eram um pouco compridas e gostava de passá-las levemente na pele e ver os pelos eriçarem. Juliana precisava de um antebraço sincero para arrepiar durante os filmes.

#Guilherme

Guilherme era considerado um cara legal por quase todos. Tranquilo, costumava sorrir ao responder às pessoas e isso causava nelas uma empatia instantânea. Era um pouco confuso por dentro, mas aprendera instintivamente que lábios entreabertos e levemente arqueados são resposta suficiente para a maioria das perguntas. Afinal, as pessoas não questionam verdadeiramente as coisas, apenas pedem, através de indagações, confirmações. E é exatamente isso que viam refletido no sorriso dele.

Ler era o principal passatempo de Guilherme. Adorava cadenciar as informações e adaptá-las à velocidade do seu raciocínio, de tal forma que não perdesse nenhum detalhe sobre os personagens. Não conseguia, aliás, se ater à história, era genuinamente apaixonado pelos personagens. Achava solitário ter tantas impressões sobre a personalidade deles e não ter alguém que pudesse ao menos sorrir quando ele as comentasse. Queria alguém que olhasse em seus olhos fingindo interesse em suas observações irrelevantes. Guilherme precisava de unhas que arrepiassem sua nuca durante suas opiniões.

#Juliana e #Guilherme

Juliana descia a escada rolante da estação Consolação do metrô com seu smartphone em mãos. Ficara presa em uma posição incômoda, pois uma senhora se postou à direita e ela teve de ficar à esquerda, com o corpo levemente virado para a escada rolante que subia. Guilherme, por sua vez, estava distraído com seu telefone quando colocou os pés na escada rolante que subia em direção à saída da estação. Por isso, mal percebera que estava no lado esquerdo (o lado da saída), com o corpo voltado para a escada rolante que descia.

No momento exato em que Juliana, concentrada em seu smartphone, postou uma mensagem em uma rede social, Guilherme e ela se cruzaram na escada rolante em sentido contrário. Ele, por sua vez, acabara de notar a nova mensagem surgindo em sua linha do tempo, postada por uma desconhecida que ele simpatizava muito. “Às vezes, o que procuramos está mais próximo do que imaginamos”, dizia. Guilherme curtiu.

Chegando no final da escada, próximo à saída da estação, Guilherme parou ao lado e pensou em mandar uma mensagem a Laura, com quem havia saído semanas antes. Não tinham muito em comum, mas sentia que era o que tinha disponível para o dia. Antes de enviar, lembrou-se da postagem da desconhecida e olhou a sua volta, mas não encontrou ninguém interessante. Riu do seu ato. Só então enviou a mensagem convidando Laura para sair e decidiu mandar também uma resposta à autora da postagem: “Já imaginou se o que procuramos fosse como os clichês, que estão em toda parte?”.

Juliana ia cruzar a catraca do metrô quando parou ao lado para ler a nova mensagem que acabara de receber. Era Pablo, um rapaz lindo e vazio que insistia em sair de novo para transar com ela. Não estava muito afim, mas aceitou, pois sentia que era o que tinha disponível para o dia. Instantaneamente, se lembrou do que acabara de postar e decidiu reler, na esperança inconsciente de acreditar nas suas próprias palavras.

Ao abrir a postagem, Juliana encontrou a resposta de Guilherme. Riu da analogia e curtiu. “Seria bom mesmo”, respondeu. “Clichês são parte do nosso idiota cotidiano”.

5 Comentários

Arquivado em @arturdotcom

Camila e a chuva

1998
Camila adorava dançar na chuva. Morava em Belém, onde a chuva é uma companheira constante, pontual e intensa. Camila arrumava-se para a chuva de todos os dias: Soltava o cabelo, trocava de vestido, optando por um modelo de tecido mais leve e que não ficasse transparente depois de molhado; colocava o pequeno aparelho de som que tinha próximo à janela traseira de casa, com uma fita de músicas que ia gravando das rádios que gostava de ouvir. Era um ritual que começava perto das três da tarde.
Quando a chuva começava ela descalçava as sandálias, apertava o botão play do aparelho de som e corria para dançar no terreiro atrás de casa, na companhia de um cachorro que a família acolhera, embora não mantivesse preso.
Camila era feliz desse jeito, e essa felicidade transbordava Camila e atingia quem estivesse por perto.
Após a chuva, ia, descalça e molhada, comprar peixe no mercado Ver-o-peso. Todos no mercado a conheciam e a chamavam de “Camila Encharcada”.

2012
Camila vive a plenitude de seus 20 anos. Mudou-se para Brasília, após ganhar uma bolsa de estudos na faculdade de Relações Internacionais. Quando era criança, tinha o sonho de dançar sob todas as chuvas do mundo: A garoa paulistana, a chuva das monções na Índia, a chuva fininha que cai em Londres vez por outra, até voltar à chuva do Pará, a sua chuva, a chuva que agora fazia tanta falta…

2062
Camila decidiu finalmente aposentar-se, após uma vida árdua e sem paixões. Conseguiu tornar-se uma diplomata, mas dançar na chuva transformou-se em vontade de dançar na chuva, que virou sonho de voltar a dançar na chuva, que virou nada. Virou uma mulher amarga, que fazia o que tinha que ser feito, na hora em que tinha que ser feito. Decidiu voltar pra Belém, não aguentava mais ver aqueles rostos petrificados que teve que suportar todos estes anos.
Chegou em Belém às treze horas. Chegou em casa uma hora depois.
Às três da tarde a chuva começou e Camila sentiu um arrepio e uma vontade incontrolável de se molhar. Colocou um vestido de florzinhas e foi pra chuva, dançar ao som do rádio que teimava em existir.

Dois dias depois, foi internada por causa de uma pneumonia. Todos os anos de secura foram demais para a encharcada Camila.

6 Comentários

Arquivado em @perereco

Nunca muda

Você acorda cansado. Exausto na verdade. Você acorda e se cansa de ter que acordar. Você se levanta cansado. Você se cansa da cama bagunçada e de ter que arrumá-la pra depois bagunçá-la novamente. Você se cansa do rosto no espelho, da barba mal feita, da sobrancelha mal desenhada. Você se cansa do noticiário, se cansa das noticias, das guerras, das mortes, dos assaltos, dos ganhadores da mega-sena. Você se cansa de não ser um deles. Você se cansa do trânsito, dos prédios, da fumaça, dos atletas amadores que correm com os cachorros. Você se cansa das portas, dos bom-dias, dos sorrisos falsos. Se cansa dos apertos de mão, dos “quer um cafezinho, água, ou refresco?”, dos papeis. Você se cansa das mulheres que reparam de mais. Dos homens que não dão sossego. Você se cansa da comida que demora e queima a boca, do refrigerante sem gelo. Você se cansa do cigarro entre os dedos, se cansa de retocar o batom. Você se cansa de ter que ir e vir, voltar pra casa para voltar ao trabalho e depois para casa. Você se cansa das despedidas, do elevador quebrado. Você se cansa das luzes no vizinho da frente, das crianças no andar de cima. Você se cansa do café frio, da comida requentada. Se cansa da novela, das pessoas fúteis, dos comerciais. Se cansa do alaranjado da escova de dentes. Você se cansa do livro. Se cansa da rotina, se cansa do dia. Você dorme cansado. E ai você acorda cansado. Exausto na verdade. Mas você continua vivendo assim, cansado, até que um dia a vida se canse de você.

7 Comentários

Arquivado em @giovanamorim

Cardápios

Domingo de sol, pássaros cantando e brisa amena. Um dia lindo e clichê, ainda que eu não me lembre exatamente de como são os dias clichês. Nunca reparei muito no tempo. Este é um dia especial.

Sentado em minha cama, de pijama, releio (ainda atônito) minha carta de aprovação no emprego em uma das mais criativas e conceituadas agências de publicidade. É um passo largo em direção ao meu sonho. Estou radiante; este é meu último dia de folga e decido torná-lo tão especial quanto minha vida será. Para começar, um desjejum na cafeteria que vende as melhores panquecas que já comi em toda minha vida. Inesquecíveis. Este é um grande dia!

As panquecas eram inesquecíveis, mas a localização da cafeteria não. Ando muito até achar o lugar; as ruas parecem diferentes e tenho que descansar algumas vezes antes de encontrá-lo. Nada vem sem esforço.

Entro e o garçom acena com a cabeça. “Mesa de sempre, Sr. Frederico?”. Mesa de sempre? Não me lembro de ter uma “mesa de sempre”… E como ele sabe meu nome? Ou melhor, o nome que deram para mim, o que é muito diferente. Fred é o meu nome, esse é o que escolhi para mim. Fred. “Sim, por favor” respondo educadamente. O garçom me conduz a uma mesa no canto, longe dos demais. Antes eu ficaria em dúvida se sou especial ou um excluído, mas hoje não. Eu sou especial.

“Deixe-me adivinhar: torradas com mel e água natural, Sr. Frederico?”. Torradas com mel? Que tipo de garçom oferece torradas com mel? Não, eu não quero nada disso. Duvido, inclusive, que alguém queira. “Panquecas com framboesa, por favor. E um cappuccino duplo sem canela”. O garçom balança positivamente a cabeça. Sinto pena dele.

Deve ser difícil ser garçom. Você trabalha o dia inteiro tentando agradar os outros para ganhar pouco e rezar por alguma gorjeta decente. Não que eu não esteja habituado a agradar chefes e clientes, mas é totalmente diferente. No meu novo emprego, por exemplo, terei perspectiva. Sim, eu poderei subir na carreira, ter novos desafios, criar. E outra: ainda que eu tenha sido contratado como autônomo e meu salário fixo seja baixo, ganharei 0,10% de comissão sobre todos os negócios que eu fechar. Só depende de mim.

A verdade é que as pessoas são muito acomodadas. Imagino todos os sonhos que esse garçom abandonou para servir mesas. Eu também posterguei alguns, claro, mas é diferente. Sempre sonhei em ser músico e em escrever um livro, mas no momento estou focado na minha carreira. Prioridades. Ainda sim, vou me dedicar ao livro nas horas vagas e, um dia, publicar. Um garçom não faria isso; aposto que ele usa suas horas vagas vendo TV. Eu também gasto algumas com a internet, mas a TV é passiva e a internet é interativa. É bem diferente.

Passam-se quinze minutos e nada das minhas panquecas. Chamo o garçom, pergunto se estão vindo e, para minha surpresa, ele diz que não. “Não?” – indago. “Não” – ele responde. “E por quê?” – pergunto. “Sr. Frederico, espero que saiba apreciar sinceridades: esqueci de pedir à cozinha. Mas vou providenciar prontamente, com licença”. Inacreditável, estou sendo servido por um garçom incapaz de memorizar um pedido com dois itens. Deve ser por isso que virou garçom ao invés de ter uma carreira de verdade. Mas não vou deixar isso estragar meu dia. As panquecas compensam.

Mais dez minutos se passam e o garçom volta à minha mesa com um prato nas mãos. “Aqui está, Sr. Frederico. Torradas com mel”. Torradas com mel!? Não acredito no que estou vendo! Este garçom indolente demora quase meia hora e serviu as malditas torradas com mel? “Estou farto desse atendimento!” disse em voz alta. “Não quero mais falar com você. Chame seu gerente imediatamente antes que eu arranje uma confusão de verdade”. É um absurdo!

O garçom olha para mim com sobrancelhas indiferentes e demora alguns segundos antes de se mexer, o que me deixa ainda mais irritado. Fico em dúvida se ele quer me provocar ou não, mas creio que não. Acho que ele só não se importa. Ninguém se importa.

O gerente chega à mesa.

– Pois não, Sr. Frederico.

– Primeiro eu gostaria de dizer que ninguém me chama de Frederico. Meu nome é Fred. Fred! Ok? Aliás, qual é o seu nome?

– Carlos.

– Ok, Carlos. É o seguinte: seu garçom ofereceu torradas com mel e eu disse que queria panquecas com framboesa. Quinze minutos depois, perguntei sobre minha comida e ele confessou que havia esquecido de pedir à cozinha. Fui compreensivo, mas dez minutos depois meu prato chegou e adivinhe o que ele trouxe? Torradas com mel!

– Nós só servimos torradas com mel, Sr. Frederico.

– O que? Como assim “só servem torradas com mel”? Seu cardápio tem 33 tipos de panqueca e você vem me dizer que só servem torradas com mel?!

– Sim, isso mesmo. Neste cardápio, nada é verdade.

– Isto só pode ser uma brincadeira. Não quero mais comer aqui. Cancele tudo, eu me recuso! Se vocês não servem panquecas, vou a um lugar que sirva!

– Panquecas não existem, Sr. Frederico. Coisas da vida.

Panquecas não existem… Estou tão irritado que não sei nem o que dizer! Cansei deste cara, é o gerente mais despreparado que já encontrei em toda minha vida. Levanto, ignoro-o e saio da cafeteria sem olhar para trás. Para mim, este lugar é passado, nunca mais voltarei. É uma questão de princípios.

Caminho para longe da cafeteria e, curiosamente, sinto uma sensação familiar… O vento aumenta sua intensidade e começo a lembrar de que eu realmente costumava comer torradas com mel… Não que isso tenha relevância, pouco importa. Aquela situação foi absurda, um verdadeiro ultraje. E este ainda é um dia especial. Mereço panquecas com framboesa.

O vento sopra forte e minha fome só faz aumentar.

Será que as torradas ainda estão à mesa?

Duvido.

2 Comentários

Arquivado em @arturdotcom

Estamos contratando

A minha função nessa empresa é demitir. Não é só isso o que eu faço, mas é algo que sempre sobra para eu fazer. Dona Betina é uma senhora de, sei lá, oitocentos anos. Não aguentou o ritmo, o tranco, de uma cozinha comercial. Deve fazer muito bem suas tortas em casa e farofa com improvisos de banana e o que tiver na geladeira sobrando. Perdi meu tempo com essa cara aqui, chamo para uma reunião e ela traz a filha que é alguma coisa. Ela podia ser advogada, escrevente, astronauta, o que fosse, mas era de uma beleza clássica. Aquilo me desestabilizou. Ninguém poderia ousar uma covardia dessas, afinal era uma reunião de negócios e não um chá em família. Um homem no ramo empresarial deve saber tomar decisões de emergência, li num livro. Não me fiz de rogado e ofereci à jovem, linda, uma visita às nossas dependências. Aproveitando a cozinha já vazia, cravei-lhe por três vezes a faca de oito polegadas no pescoço. A quarta vez não pegou direito e machucou minha mão. Voltando, informei em tom seco e direto que aquela senhora estava demitida.

2 Comentários

Arquivado em @escuerzo