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Nenhum de nós

Já era madrugada quando recebi uma mensagem de um grande amigo virtual. Um cara especial, que eu gostava e admirava cada dia mais. Não tinha introdução ou justificativa, apenas reflexões:

“Sou um escárnio. Não sou mais do que cólera travestida de razão, dourada por engodo. Sei quem sou, sei o que sou, sei como sou. Sou aversão, odiosidade, repulsa; meu nojo é enorme e imensurável. Odeio todos e preciso de todos, como um doente terminal que odeia sua comida asquerosa, mas depende dela. Quero escarrar na cara das pessoas, a mesma face que beijo e exalto, cubro de louvores, na esperança vil de que façam o mesmo. Sou ira, e todos são como eu; repugno-os, por assim serem, por me repugnarem, por odiarem, por me odiarem, por odiarem que eu odeie-os e, ainda assim, sorrirem, como num círculo, já que não têm início e são infinitos. Sou antipatia, raiva, rancor.

“Sou o mundo; tudo sou eu e eu sou tudo. Nada existe sem meu olhar e a vastidão é minha criação mental, que desaparece quando a esqueço. O menor dos atos é para mim; a existência é uma peça ensaiada para meu desfrute, meu deleite, que inexiste, pois é mal acabada, com enredo patético, risível, abominável. Chacinaria todos os atores, torturaria cada um deles, se não fossem eu mesmo, na verdade. Isso dói. Não a dor dos fracos, dos ignóbeis, dos imbecis. Esses, cretinos, uso com maestria. Mas a dor de um deus que rejeita sua criação, que execra seu trabalho, pois o mundo é meu e faço o que quero. Manipulo, julgo, engano. Meu prazer se esconde na minha existência; ele nunca vem, está sempre no próximo passo, na próxima vingança, no próximo inepto humilhado, no ignorante desdenhado, na coerção do servil e do obnóxio. Isso alivia minha dor.

“Mas jamais me conhecerás. Não porque não me conheças, mas porque já me conheces e não queres me conhecer. És privação desesperada, ausência infinita, imensurável carência; colossal e indisfarçável carência, abjeta, rasa, pueril. És a busca exasperada, incessante e descontrolada pelo equívoco tranquilizante, pelo conforto, por um instante de consolo. Porque és fraco, patético, humano. Desesperado e medíocre, confias em cada um dos meus enganos conscientemente, e esforças-te para te iludir e, assim, aliviar-te. Cada vocábulo meu é um conforto para tua angústia, tua infinda amargura, débil, angústia que sempre sentirás. Isso te machuca e, para isso, te dedicas. Assim, és cada dia mais frouxo, e, por ser, cada dia serás mais, pois sempre sucumbirás aos placebos que te tornam ainda mais anêmico.

“Foges de quem não te cobre de confetes, rejeitas os que te socorrem com os fatos. Tudo para te aquietar no aconchego da tua fragilidade, no amparo do teu ninho de falsidades. Do nosso ninho de falsidades. Essa é a nossa sina, cretino.”

Estranhei a mensagem. Ele não é assim. Talvez estivesse deprimido ou com algum problema pessoal, não sei. Pouco importa, pois ele não é assim. Não vale a pena perder tempo se preocupando com essas coisas. Preferi deletar.

Sei que ele não é assim.

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