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Ensaio sobre Comida Barata

Era bem novo quando ouvi, pela primeira vez, que baratas se alimentavam de muco nasal.
Não dei bola na época; mal sabia o que era muco.
Parecia mesmo o nome de comida de baratas.
Quando cresci e me disseram, pela primeira, vez que tinha muco escorrendo do meu nariz, fiquei desesperado.
Senti-me um náufrago sangrando em um mar infestado de tubarões.
Baratas são sinantrópicas poderosas e aterrorizantes, que partilham sua intimidade como se fossem convidadas.
Nunca, porém, as vi como inimigas.

Agora, sentia que minha terra fértil poderia ser invadida a qualquer momento por sua artilharia pesada.
Por terra, baratas atacam sorrateiramente, subindo suavemente por nossas pernas com patinhas infestadas de restos de lixo, esgoto e dejetos.
Pelo ar, avançam sobre o inimigo com rasantes imprevisíveis, alternados por voos kamikazes que mudam de direção no último instante, pegando as vítimas de surpresa.
Jamais estaria seguro novamente.

Minha primeira noite de guerra foi de vigília completa, com luzes acesas e sem dormir.
Momentos de fraqueza, onde meus involuntários cochilos foram demoradas trocas de turno que deixaram meu território vulnerável, marcaram a segunda noite.
Estrategicamente, usei óculos de sol como muralhas para encobrir a visão das inimigas.
Na terceira noite, porém, sabia que a batalha seria intensa.
Por conta da tropa exausta, preparei minas terrestres espalhando bolinhas de veneno pelo chão do quarto.
Em volta da cama, incontáveis bacias, pratos e potes cheios d’água formavam uma barreira quase intransponível.
Contra os ataques aéreos, me protegi usando camada dupla de cobertor que transformou a área do muco em um abafado, caloroso e claustrofóbico bunker.
Ao cair da noite, porém, a falta de ar me levou a abrir o bunker.

Percebendo minha exposição, uma inimiga sobrevoa o território para verificar se está seguro.
Pousa cuidadosamente sobre minha bochecha direita.
Uma pequena brecha na barreira d’água permite que outra progrida pelo sul da cama, subindo sorrateiramente pelo meu pé esquerdo.
As demais percebem o caminho livre e rapidamente ganham terreno pela minha perna.
Sem muito esforço, o território está conquistado.
A barata que está na minha bochecha, primeira a chegar, caminha pelo meu rosto até sentar sobre a minha boca.
Despreocupadamente, coloca sua cabeça dentro do meu nariz e começa a se deliciar com meu muco.
Suas antenas e patinhas pinicam minha sensível mucosa nasal.

As outras baratas chegam ao nariz e vão, uma a uma, ingressando para comer.
Na entrada, uma barata esguia e de antenas longas convida as demais a provar minhas inigualáveis iguarias, ajudando-as a encontrar um lugar disponível.
Dentro, pequenas e rechonchudas baratas detalham o menu do dia, com pratos que variam de caquinha seca (couvert) a ranho verde (sobremesa), passando por meleca (entrada) e catota (prato principal).

É uma noite de festa.

Sempre considerei os insetos insignificantes.
Para mim, não passavam de comida da minha comida.
Agora, sou comida barata.

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