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Safári urbano

Fim de expediente. Demorou-se ainda alguns minutos antes de pegar suas coisas e ir embora. A competição no trabalho estava feroz. Seu chefe andava numa caçada por incompetentes desde que recebeu ordens de fazer corte de pessoal. Para quem tem pouco, como ele, a demissão é a morte. E ali os fracos não tinham vez.

Agora precisava correr se quisesse sentar durante a viagem de mais de uma hora entre o trabalho e a sua casa, no fim da linha. Precisava ser mais rápido do que os outros. No horário de pico, são todos selvagens. Precisava usar toda sua agilidade animal para conseguir um assento onde pudesse cochilar entre as batidas da sua cabeça escorada no vidro da janela.

Mais uma vez conseguiu. Uma sensação de poder sentou junto com ele. Era o macho alfa. Lutaria até a morte com quem quer que ousasse tentar tirá-lo do trono de fibra e restos de pipoca doce. “Só os fortes sobrevivem”, pensou ao ver um velho se aproximar. Na natureza selvagem, nenhum líder do bando dá seu lugar aos inválidos. É a lei da vida.

Quando o sol se põe, os animais correm para o seu abrigo. Logo o cansaço das horas passadas em pé, repetindo movimentos na linha de montagem da firma, o fizeram pegar no sono e soltar a imaginação. Sonhou que estava na selva, num desses ônibus de turismo que gostava de ver na televisão. Estava num safári, ansioso para observar a vida acontecendo, a natureza em sua forma mais crua.

Quando a expedição se aproximou da savana, no entanto, viu que algo estava errado. Sua ansiedade deu lugar à confusão. Não havia qualquer movimentação ameaçadora, era até mesmo uma atmosfera preguiçosa a que pairava ali. Quando passou pelos primeiros grupos de animais, a confusão se tornou incredulidade.

Viu do lado direito do ônibus alguns animais lendo jornal enquanto tomavam um café e, do lado esquerdo, havia feras andando presas em jaulas motorizadas com a estrela da Mercedes-Benz. Aquilo era inaceitável! Ele havia pago uma fortuna para viver a emoção do perigo e ver em ação os instintos animais, não para ver uma gazela tricotando.

Começou a reclamar para os outros passageiros, que pouco se importavam com a sua indignação. Muitos deles nem mesmo olhavam para fora. Estava inconformado. Alguém precisava libertar aquelas feras do torpor em que se encontravam. Estava a um passo de dar um jeito naquilo, quando sentiu que alguém lhe segurava pelo ombro.

– O senhor precisa descer agora. – disse uma voz entediada.

Sentiu o rosto corar de fúria. Quem eles pensavam que eram para mandá-lo descer? Isso não ia ficar assim!

– Senhor, esse é o fim da linha. O senhor precisa descer! – a voz insistiu.

Subitamente ele tomou consciência do que se passava e, tão rápido quanto isso aconteceu, viu a chuva caindo lá fora e percebeu que esquecera o guarda-chuva. Não percebeu que, além do guarda-chuva, havia esquecido seu sonho. Desceu do ônibus e andou alguns quarteirões sob a chuva forte até chegar em casa.

Entrou e foi ao banheiro tirar a roupa molhada. Viu no espelho seu corpo animal metido num uniforme marrom idiota. Mais tarde se alimentaria e então acasalaria com aquela fêmea obesa que não podia abandonar. Para respeitar seu instinto de andar em bando, era necessário renegar muitos outros.

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